Início: 08/11/2010 Término: 14/11/2010 (7 dias pedalados)
Total: 460Km Média: 66Km/dia
Geral: 2839Km
Cidades: 06 (Barra do Garças-MT, General Carneiro-MT, Vila Paredão-MT, Primavera do Leste-MT, Campo Verde-MT e Chapada dos Guimarães-MT)
Acordamos no porto do Baé e arrumamos nossas coisas para partir de Barra do Garças e começar o cicloturismo pelo estado do Mato Grosso. Enquanto desmontávamos acampamento, vimos dois botos subindo o rio. Sinal de que o dia ia ser bom! Quando já estávamos prontos para começar a pedalar, aparece o Ebinho Souza, o cicloturista de Juiz de Fora que conhecemos bem ali no encontro dos rios. Ele fez um almoço ali mesmo para comemorarmos este encontro e trocamos altas idéias. Ele iria fazer o mesmo caminho que nós, mas não partiria de Barra naquele dia. Ele nos disse antes de sairmos: “Não sou da globo, mas a gente se vê por aí”.
Saímos de Barra com o tempo cinzento, meio chuvoso, feio de ver, mas muito bom para nós, pois ameniza o calor infernal da região e nos desgasta menos durante as pedaladas. No primeiro dia fomos até um restaurante de beira de estrada chamado Galinha Caipira, onde pernoitamos. Na hora de fazer nosso rango, vimos que perdemos um parafuso do nosso fogareiro e ele não funcionava. Tentamos fazer uma fogueira em uma churrasqueira, mas só conseguimos fumaça! Por fim, o que nos salvou foi um querosene que estávamos carregando para limpar as bicicletas. Fizemos um fogo numa latinha e terminamos de preparar nossa gororoba.
Começamos a pedalar cedo e logo chegamos a General Carneiro, onde almoçamos e repomos nossa dispensa. Encontramos lá um casal de cicloturistas baianos que estavam indo no sentido contrário ao nosso e disseram estar vindo de Rondônia somente por estradas de terra. Haja disposição! Seguimos viagem até o Bar do Xerim, um restaurante bem simples na BR-070. Pouco tempo depois que chegamos, aparece o Ebinho pedalando. Fizemos um jantar caprichado e acampamos na varanda do bar.
Pedalar pela BR-070 no estado de Mato Grosso foi uma aventura perigosa. A estrada não tem acostamento e é pista de mão dupla. Quase não se vê carro de passeio transitando pela rodovia, que é dominada por caminhões e carretas bitrem. Como a estrada é muito plana, esses veículos monstruosos passam a milhão. A maioria deles nos respeita e nos ultrapassam de longe, buzinando para nos cumprimentar, mas em outros momentos temos que sair do asfalto. Ficamos sempre ligados no retrovisor, que nunca foi tão útil quanto nesse trecho. Tiago deu sorte, pois colocou um retrovisor de moto na bike em Barra do Garças.
A estrada plana e o tempo nublado ajudou na pedalada até a Vila Paredão, distrito de General Carneiro, acompanhados pelo Ebinho. O visual deste trecho foi muito top! Vários paredões e chapadas de arenito vermelho encheram nossos olhos e nos deram um gostinho do que nos esperava na Chapada dos Guimarães. Acampamos na varanda da casa de orações da igreja local e, mais uma vez, fizemos um rango especial com direito a feijão com linguiça e angu a baiana.
Ebinho nos contou muito de sua história nesses 15 anos de estrada e foi muito massa trocar idéia com um cara de Juiz de Fora, falar da Tribuna de Minas, Parque Halfeld e outras histórias de Juiz de Fora. Aprendemos muito sobre a vida na estrada escutando suas experiências de cicloturista. Pedalar com o Eber e ver toda sua disposiçao aos 59 anos de idade, nos inspirou e deu forças para seguirmos nossa Nova Origem.
Depois da Vila Paredão, passamos pela reserva dos índios Xavantes. Foram 40Km de estrada, onde do lado direito – a reserva indígena – era puro Cerrado preservadíssimo e, do lado esquerdo – fazendas – grandes lavouras e monoculturas. Estávamos apreensivos durante este trecho, pois fomos alertados de que os índios faziam barreira na estrada, mas não tivemos problema algum. Durante o trecho vimos apenas um índio, mas ao invés de arco e flecha, ele carregava uma espingarda!
No dia seguinte, antes de partirmos do Posto Companheiro, onde passamos a noite, tivemos a oportunidade de conversar com um índio Xavante que tinha chegado de carro ali e ficou curioso com nossas bicicletas. O índio nos contou histórias emocionantes de como sua tribo fica restrita àquele espaço de terra da reserva. Ele nos disse: “Os Xavantes são índios guerreiros. Nós queremos respeito do branco. Somos todos seres humanos e queremos respeito!”. Ele terminou nos contando o caso do seu primo que tinha morrido há pouco mais de um mês, atropelado por um caminhão, quando voltava de bicicleta de uma pescaria. Os Xavantes fecharam a rodovia por dois dias para tentar encontrar o caminhoneiro responsável, mas sabe como é né… missão impossível. Ele nos disse também que a reserva tem cerca de 15 mil índios, espalhados por 42 aldeias. Eles falam o dialeto próprio dos Xavantes. As crianças frequentam uma escola estadual na aldeia de Sangradouro, até completarem o ensino fundamental e depois vão terminar os estudos na cidade. Ele disse que não recebem ajuda financeira do governo e que vivem da caça de anta, tatu, veado campeiro entre outros animais do Cerrado. Vendo a reserva de uma colina, podemos concluir que pelo menos preservar a mata eles sabem fazer melhor do que os brancos que destroem a mata nativa para “produzir alimento”.
Os 40Km até Primavera do Leste foram tranquilos, mas a paisagem nos assustou. Lavouras a perder de vista transformaram o horizonte em um verde monótono, que mais parece um deserto sem vida, muito diferente do verde que vemos em florestas e matas preservadas. É muita terra mesmo, na mão de pouca gente que enriquece com ajuda do governo e dos trabalhadores rurais. A cidade de Primavera do Leste é voltada para o agronegócio. Tudo é mais caro e passamos somente uma noite lá, hospedados no Batalhão dos Bombeiros. Aqui no Mato Grosso temos que agradecer muito à essa corporação que tanto tem nos ajudado.
Em Primavera do Leste nos desencontramos do Ebinho, que a essas horas continua seguinho seu caminho “… a gente se vê por aí!”. Na partida da cidade fizemos uma matéria para a TV Primavera, afiliada da Record e seguimos para Campo Verde. A estrada até a cidade não mudou em nada o monótono visual de lavouras infinitas e, nesse dia, batemos nosso recorde de quilometragem. Pedalamos 105Km sempre com o mesmo deserto verde das fazendas, que nos gerou muitas reflexões, sobre quem tem a posse dessas terras e qual a real finalidade do seu uso. Refletimos muito também sobre o nosso consumo e como isso interfere no mundo. O mais triste é pensar que ali um dia foi Cerrado preservado, cheio de vida.
Para reforçar a idéia de que essas monoculturas extensivas não são positivas, em Campo Verde trocamos idéia com o pessoal da Pizzaria Massapê, que nos recebeu muito bem por lá. Eles nos contaram que a cidade é a primeira no Brasil em produção de algodão, soja, ovos e também é campeã em casos de câncer. Com 30 mil habitantes, Campo Verde registra uma morte a cada 40 dias por conta da doença que é causada pela contaminação da água e do ar por agrotóxicos das lavouras. Passamos em frente ao aeroporto da cidade, bombado de monomotores equipados com pulverizadores para borrifar agrotóxico nas lavouras. Como de costume no Mato Grosso, passamos a noite no Batalhão dos Bombeiros e o Cabo Dias, que nos contou várias histórias, nos disse que tem dias na cidade em que você sente gosto ruim na boca do agrotóxico que é trazido pelo vento.
Bom, pelo menos estávamos próximos da Chapada dos Guimarães, a segunda Chapada de nossa rota (leia os posts da Chapada dos Veadeiros). Saímos de Campo Verde animados para pedalar os 70Km que nos separavam desse paraíso preservado no meio dessas monoculturas que já estavam nos incomodando. Outra coisa boa é que a estrada de Campo Verde até a Chapada é bem tranquila, com um acostamento curto, mas seguro e sem caminhões. É proibido o tráfego de caminhões com mais de três eixos por ali.
Pedalamos os 30Km iniciais ainda cercados por grandes pastos e plantações e só encontramos uma faixa de Cerrado preservado no Balneário da Martinha, ponto de entrada da Chapada dos Guimarães. O local tava bombado de gente! Mas também chegamos bem no domingo, 14 de novembro, véspera de feriado. Paramos para dar um mergulho e nos refrescar, mas foi o tempo de molhar a cabeça e fomos pegos por uma chuva pesada! Corremos com as bikes para o restaurante do outro lado da rodovia e ficamos lá esperando o tempo melhorar e trocando idéia com o pessoal que também correu pra lá para se proteger da chuva.
Quando decidimos seguir viagem, ainda chovia um pouco e ventava frio. Vestimos nossas roupas de chuva pela primeira vez durante uma pedalada e seguimos para terminar os 40Km finais. Triste chegar na Chapada embaixo de chuva, com tempo cinza e visual limitado. Ainda paramos no Mirante do Geodésico, que fica há 8Km da cidade. No alto do mirante venta muito, a vista de lá é show e dá até para ver a cidade de Cuiabá, situada há 65Km da Chapada. Do mirante até a cidade tem uma faixa compartilhada para pedestres e bicicletas e pedalamos por ela despreocupadamente até chegarmos, enfim, à Chapada dos Guimarães!



























































Pedalando pelo Cerrado
Quando estávamos chegando em Três Marias, percebemos uma mudança na vegetação na beira da estrada. O clima foi ficando seco, e o pôr do sol avermelhado destacavam as formas retorcidas da vegetação, chegamos no Cerrado.
Perfil do Cerrado
No caminho para Chapada dos Veadeiros uma placa na estrada com os dizeres: “Cerrado – a savana com maior biodiversidade do mundo.” nos lembrou de onde estávamos. Grande parte da flora e fauna do cerrado só tem neste bioma e faz a vida ali ser ainda mais especial.
Palipalan, chuveirinho do Cerrado
Arara Vermelha
Infelizmente, restam somente 20% da mata nativa do Cerrado. Pequis, Barus, Sapucaias e Ipês são substituídas pelo homem por Eucalípto, Soja, Algodão e pasto para alimentar o gado, que tomou o lugar da anta, tamanduá-bandeira, veado campeiro, onça-pintada, lobo guará e por aí vai…
Segundo a ONG Conservacao internacional, é bem provável que o Cerrado vá desaparecer nos próximos 25 anos. Um dos dados desse levantamento mostra que 2,6 campos de futebol sao desmatados por minuto nos últimos anos.
Deserto Verde
Em nossas pedaladas de Três Marias até Paracatu, mais de 100km de estrada cercada por monótonas plantações de Eucalípto.
Monocultura de Eucalípto
A cidade de Paracatu é uma das maiores produtoras de grãos do Brasil, os pivot de irrigação estão espalhados por todas as partes. O negócio é tão bom, que lá está o maior pivot do mundo. A cidade também possui a maior mina de ouro do Brasil, que está sendo explorada pela Kinross, empresa Canadense.
Exploração de ouro em Paracatu
Mina de ouro da empresa Kinross
Ali do lado, a cidade de Vazante ficou conhecida com a capital do Zinco, e suas minas do metal são exploradas pela Votorantim, que inclusive faz o benefíciamento do Zinco nas margens do rio São Francisco.
Rio São Francisco e a lagoa de rejeitos
Visita à Votorantim Metais
As queimadas no Cerrado, antes naturais, agora são provocadas com muito mais intensidade pelo homem. Neste ano de 2010, mais de 35% do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e 50% do Parque Nacional de Brasília foram consumidos pelo fogo.
Queimada na Chapada dos Veadeiros
As cercas das grandes fazendas tiram o direito não só do povo ter onde plantar, mas também o direito a vida de animais e plantas que viviam ali antes da ocupação humana. Presenciamos a cena de uma Ema e seus filhotes tentando sair das margens da rodovia, mas uma cerca de mais de kilômetros dos dois lados as impediam de passar.
Casal de Emas
As estradas que cortam o Cerrado e quem dirige por elas são com certeza um dos maiores responsáveis pela morte de animais silvestres. Tamanduás bandeiras, tatus e ciriemas são vistos aos montes mortos na beira das rodovias.
Tamanduá morto na estrada
Em nossas pedaladas pela savana brasileira o que não faltou foi água. Por todos os cantos cachoeiras e rios refrescaram nosso caminho. A explicação para essa quantidade de água é que no Cerrado estão as nascentes dos principais rios das bacias Amazônica, da Prata e do São Francisco.
Rio São Francisco
A represa de Três Marias e o Lago da Serra da Mesa com 1.040 km² e 1.784 km² de área de cerrado alagada respectivamente, garantem a produção das hidrelétricas.
Represa em Três Marias
Foi no estado de Goias, na Chapada dos Veadeiros que tivemos nosso primeiro contato com o Cerrado Selvagem. Fizemos várias trilhas e até nos perdemos. Chegamos lá no mês de junho, tempo de seca e das flores, que deram um show a parte.
Vista do Sertão Zen - Chapada dos Veadeiros
Tucano
O povo diz que se o primeiro pássaro que vc ver no dia for um Tucano ou uma Arara é sinal de que terá um bom dia. Deve ser por isso que quem vive no Cerrado está sempre de bom humor, já que é muito comum acordar, olhar pro céu e ver um tucano ou um casal de arara gritando.
O Estado do Mato Grosso é o maior produtor de algodão e soja do páis. Conseguimos ver e sentir isso durante nossas pedaladas pelo estado, onde a paisagem dominante é a de grandes plantaćões. Na cidade de Campo Verde, aviões pulverizam agrotóxicos pelas plantacoes e fazem o índice de morte por cancer naquela regiao ser uma das maiores do país.
Plantação de Soja - MT
Avião borrifador de agrotóxico
As únicas áreas de Cerrado preservado que vimos no estado que vimos foram a Reserva Índigena de Sangradouro e o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães.
Chapada dos Guimarães
No Cerrado plantamos mudas, e colhemos amizades e aprendizados.
Ramón, Franz e Suzana
Plantio em Paracatu
Curso de Agrofloresta no Ipoema
Casa da Rafa em Brasília