A Bolívia é dividida entre dois povos, os cambas e os collas. Os cambas são os mestiços, que habitam a parte baixa do país e os collas o povo mais indígena, dos grandes vales e dos Andes. E Santa Cruz de la Sierra é a capital Camba, um povo aberto, globalizado e bem humorado, que muito se assemelha ao brasileiro e, por isso, nosso tempo na cidade não podia ter sido melhor.
A capital Cruceña foi nosso primeiro contato com uma cidade grande na Bolívia, com muita mistura de cultura. Pessoas vestidas de forma muito distintas, hábitos diferentes, todos misturados. A comida é bem exótica: Suco de balde, panza rebozada (uma espécie de buchada de bode), frango frito no meio da rua, muita sujeira e higiene nenhuma. As feiras livres estão espalhadas por toda cidade e o que nos salvou foi a grande variedade de frutas. Ficamos chocados, mas ao mesmo tempo intrigados com toda aquela diversidade.
Nos hospedamos no Alojamento Econômico, próximo ao antigo Terminal de Buses, conhecido como Ex Terminal. Chegamos neste alojamento pela Cláudia, que conhecemos pouco depois de chegar à Bolívia, em Ascención. Ela nos indicou o alojamento de sua prima Griselda. Ficamos sabendo depois que essa região é a mais perigosa da cidade, mas não vimos nada de anormal por lá.
Griselda nos ajudou muito por lá, com um super descontasso nas diárias, nos convidou para almoçar diversas vezes, foi nossa guia para onde quer que quiséssemos ir em Santa Cruz e ainda ganhamos uns refrigerantes e cervejas do bar La Cueva del Tejon, que fica logo abaixo do alojamento.
No primeiro dia de Santa Cruz fomos direto em uma feira que acontece toda quinta-feira, chamada de Feria de la Cumavi. Uma feira de roupas usadas que vem dos Estados Unidos e lá é possível encontrar muita coisa boa a um preço inacreditável. Tem roupa que custa menos de R$1!
Lá compramos algumas roupas de frio e camisas de tecido dry fit, tudo por menos de R$10 cada. O Caseh ainda comprou uma bota massa demais por R$15, pena que o sistema de impermeabilização dela não estava bom, mas tem sido um calçado útil na viagem.
Comemos basicamente Pollo Chinês, que é frango com macarrão e arroz. O triste era quando não achávamos um cabelo no prato, porque aí era certo que tínhamos comido ele.
Nos chamou muita atenção uma bike adaptada com uma chapa de hamburguer, que a galera vende as hamburguesas no meio do trânsito. Num sinal o chapeiro freiou a bike rápido, soltou o guidão e deu aquela ajeitada nas carnes de hamburguer com a mão. Pegar a comida com a mão é normal por aqui também, eles te entregam a comida com a mão, te dao o troco e ainda limpam a mão na roupa, como se nada tivesse acontecido.
As estátuas e monumentos espalhados pela cidade nos contou um pouco da rica história boliviana.
Bicicleta em Santa Cruz
O trânsito da cidade é muito ruim! Muitos carros, taxis e micros dividem espaço entre os anillos (a cidade é divida em anéis concêntricos) e os motoristas quase não usam seta, sinalizam tudo que vão fazer com buzinadas.
Apesar do terreno plano ser perfeito para andar de bike, a bagunça de automóveis e a disputa de espaço com os carros nas ruas faz com que andar de bicicleta por lá seja muito arriscado. Esse é um dos motivos de não se ver muita gente pedalando nas ruas.
Conseguir peças de mountain bike em Santa Cruz foi uma grande aventura. Tiago precisava comprar uma sapatilha, pneu e algumas peças de reposição. Nas lojas indicadas, só tinha bicicletas de crianças e as do estilo barraforte. As peças são da China e de péssima qualidade, Shimano nunca ouviram falar. Compramos nessas lojas de “repuestos de bici” câmara de ar e pneu, mesmo assim um dos pneus que compramos explodiu na saída da cidade.
Um brasileiro que conhecemos, que anda de bicicleta, nos indicou a loja Monaco, onde encontramos peças boas e o Tiago conseguiu comprar sua sapatilha para substituir o trapo que ele vinha usando no pé. Apesar de ser usada, a sapatilha é Shimano e está em ótimo estado e custou 100Bs, cerca de R$30.
Caseh aproveitou também para trocar o cubo traseiro da bicicleta, pois estava estourado e muito ruim para pedalar. Por sorte trazia um bom de reserva.
Bicicleteria Monaco
Calle Buena Vista (zona Mercado Mutalista al frente) Diagonal (Banco Económico Préstamos mi Socio, Nº2545)
Tel.: 348-0903
Cels.: 721-74452 / 736-56401
Santa Cruz de la Sierra – Bolívia
Pontos turísticos
Em Santa Cruz não ficamos muito por conta de turismo, mas conhecemos dois pontos importantes, a Plaza 24 de Septiembre e o Parque Urbano.
A Plaza 24 de Septiembre é o lugar mais famoso da cidade, onde muita gente se reúne nas tardes e noites para ficar conversando e tomando um sorvete. Lá tem a bela Catedral Matriz, uma construção enorme e toda em tijolos. A sede do governo estadual também fica na praça, junto com teatros, museus, bons bares e sorveterias.
Fomos com as bicicletas na praça para vender algumas fotos e conhecemos bastante gente legal por lá. Encontramos alguns brasileiros que estavam de passagem pela cidade, mochilando pela Bolívia e também um casal de missionários da Igreja Batista, que o cara já rodou muito de moto pela América do Sul e nos deu uma ajuda.
Roletamos de bike pelo Parque Urbano, um dos poucos redutos de área verde na cidade. A galera vai lá para relaxar, fazer picnic e praticar esportes, como caminhada e futebol.
Amigos Cruceños
No tempo que ficamos lá, ficamos muito amigos do pessoal do Alojamento Econômico, principalmente a Griselda, Moira e a criançada que mora lá, que nos atormentou todo o tempo. Era só sair do quarto e já chegava um deles e perguntava “Que esta haciendo, señor?”.
Quando tiramos um dia para arrumar as bicicletas e lavar as barracas, foi quando o bicho pegou. Só precisava de um segundo de desantenção de nossa parte para cada um deles estar com alguma ferramenta ou peça de bicicleta na mão correndo de um lado para o outro. Não sei como não perdemos nada para estes pestinhas, que do mesmo jeito que nos atormentaram, fizeram a alegria dos momentos que estávamos no Alojamento.
Cláudia, a prima da Griselda, tinha também chegado na cidade e tiramos um dia para ir a sua casa fazer um almoço de arroz com feijão para não perder o costume. Lá conhecemos seu irmão Rodrigo, também gente boníssima e tenho certeza que deixamos a cidade com boas amizades nessa família.









































































































































Subindo os Andes pela “Carretera Antigua” – Santa Cruz de la Sierra a Cochabamba
Para ir de Santa Cruz de la Sierra a Cochabamba existem duas opções: a estrada nova ou a antiga. A estrada nova está toda asfaltada, o caminho é um pouco mais curto e o trecho plano é bem maior. Na estrada velha (Antigua Carretera), a subida começa próximo a Santa Cruz e tem um trecho de 150Km de estrada de terra. Além disso, o noticiário informava que nessa estrada estava acontecendo vários deslizamentos de terra na região das cidades de Bermejo e La Angostura. Mas como a estrada velha é muito mais bonita e rica culturalmente, decidimos partir por ela, independente dos problemas.
Nos despedimos do pessoal do Alojamento Economico de Santa Cruz com um almoço de arroz com lentilha preparado pela Griselda, uma boa amiga que fizemos na Bolívia. Pedalamos 33km e chegamos a cidade de Los Tornos com muita chuva, trocamos um raio quebrado do Tiago e pernoitamos no Alojamento Gutierres, um lugar muito sujo e feio, que custou cerca de 50 bolivianos. A ansiedade aumentava, estávamos no pé da subida dos Andes, o tempo estava muito instável e o noticiário falava que a estrada estava interrompida por conta de deslizamentos.
Chegando nas primeiras, das muitas montanhas que subimos na Bolívia
Choveu a noite toda e pela manhã também, saímos do alojamento as 10 da manhã, quando a chuva parou. Na saída da cidade uma feira com frango, carne, tudo no meio das moscas. A falta de higiene nos impressiona cada vez mais aqui na Bolívia.
As monótonas paisagens de planícies que vinhamos pedalando desde o estado do Mato Grosso, no Brasil, enfim mudaram. Começamos a subir os Andes por uma estrada de muitas curvas, passando por grandes vales, beirando o rio Piray, sempre cercados por grandes montanhas.
Serpenteando entre as montanhas cobertas de verde vivo
Ficamos mais tranquilos quando passamos pelo trecho onde a estrada estava bloqueada. Algumas máquinas e homens ainda trabalhavam tirando pedras e barro da pista, mas a estrada estava liberada.
Homens trabalhando para limpar a estrada
Fizemos uma parada em Bermejo para almoçar e contemplar os belos paredões vermelhos da pequena vila.
Serra Vermelha em Bermejo
Continuamos a subir, com objetivo de chegar a Cuevas e no topo do morro, para chegar na cidade, a corrente da bike do Caseh arrebentou. Enquanto ele arrumava, parou um caminhão e Jaime, o motorista, nos convidou para irmos de carona com ele até Samaipata, que ficava há 25km de onde estávamos e que lá poderíamos pernoitar em seu chalé. A oferta de um teto e banho quente foi irrecusável.
Jaime, amigo de Samaipata
Samaipata é uma cidade turística e bem organizada, se comparada com os padrões Bolivianos. Na cidade está uma das melhores portas de entrada para o Parque Nacional Amboró, além do sítio arqueológico de ruínas incas: “El Fuerte de Samaipata”. Não visitamos nenhum dos dois lugares porque eram bem caros e nossos recursos estão ficando cada vez mais escassos.
Ficamos três dias em Samaipata por conta do tempo ruim, acampados atrás do chalé, já que o Jaime tinha voltado para Santa Cruz. Por lá chegamos a conhecer a cachoeira de Cuevas (muita areia e pouca água) e o mirante do hotel El Pueblito, com um visual muito bonito da cidade.
Vista noturna da cidade de Samaipata
Cachoeira de Cuevas
Castelinho em Samaipata
Saindo de Samaipata, mais subida e os Valles Cruceños apareciam cada vez mais lindos, com montanhas enormes cobertas de verde muito vivo. O melhor de subir é contemplar a vista de cima: de um lado o morro superado e do outro a descida que estar por vir. Dormimos em Mataral, que fica a cerca de 60km de Vallegrande, cidade onde Che foi executado pelo exército Boliviano. Na saída da cidade, uma senhora nos ofereceu uma penca de bananas, e nos disse: ”Fui muito bem recebida quando fui ao Brasil e espero que os Bolivianos também os receba muito bem, pois essa é a verdadeira revolução.” A estrada e as pessoas nos ensinam muito. Nesse clima seguimos pedalando por uma vegetação muito diferente, uma imensa floresta de cactus e árvores retorcidas, lembrando o cerrado. Chegamos em Comarapa e de agora pra frente é estrada de terra e pedras (chamada aqui de rípio) e pura subida.
Jardim de Cactus na região entre Mataral e Comarapa
No dia seguinte subimos de 1850m a 2600m até um povoado chamado Torrecillas, conversamos com o coordenador da escola e dormimos por lá. Essa noite foi a primeira vez que fez realmente frio. No dia seguinte quando estávamos saindo uma senhora nos parou e nos deu um saco de batatas, um bom sinal, já que o pessoal de Santa Cruz disse que não conseguiríamos nem um copo de água com os Collas.
Um fim de tarde inesquecível na escola em Torrecillas
A mudança não foi só no relevo e clima, mas principalmente nas pessoas e sua cultura. O povo do alto se veste de maneira muito peculiar, falam o idioma próprio Quechua e são bem descofiados. Quando chegamos nas pequenas vilas, nos sentimos como ET’s, mas rapidamente nos enturmamos. Tem sido uma experiência muito rica interagir com esse povo tão diferente para nós. Suas roupas coloridas, as condições em que vivem, seus custumes, tudo nos encanta.
Família Colla
Molhando a criançada
Fazendo feira
Seguimos pedalando em subidas e descidas gigantes, cada vez mais alto, até superarmos os 3000m. O visual dos vales e das montanhas andinas que começavam a aparecer no horizonte nos tirava o fôlego, mas não como a falta de ar da altitude. No caminho uma chuva leve nos pegou, ficamos assustados, pois com aquele frio não sabíamos se o equipamento iria dar conta, mas corremos para nos abrigar e deu tudo certo.
Ficamos apreensivos quando o tempo começou a fechar na altitude
Neste trecho passamos por La Siberia, um lugar famoso, que sempre está no meio das nuvens, com forte neblina e chuviscando. A subida até lá foi forte e quando já estávamos chegando no topo um carro parou e o motorista nos cumprimentou com um “Que tengan una feliz altura!”. Logo depois, já chegando no cume e com algumas nuvens passando por nós, um Condor aparece do meio das nuvens, voa sobre nossas cabeças e do mesmo jeito que veio, foi embora, como se viesse para nos dar boas vindas aos Andes.
Chegamos aos 3.000m de altitude e começamos a sentir falta de ar e frio. Pedalar nessas condições nos deixa ofegantes e estamos indo bem devagar para nos aclimatarmos.
Arrumar a bike nesse visual fica fácil!
No km 170, há 3060m, paramos em uma curva abandonada, pois parte dela tinha caído e a estrada neste trecho foi reconstruída. O lugar é maravilhoso, com uma mina de água próxima e uma vista das lindas montanhas andinas. Batizamos o lugar de “Mirante da Curva” e acabamos dormindo duas noites por lá, fazendo comida na fogueira, dando uma geral nas bicicletas e contemplando as montanhas e de noite um céu infinito de estrelas.
Na segunda noite, uma ventania nos tomou de surpresa no meio da madrugada. Fazia bastante frio e tivemos que sair no meio do vento para reforçar as barracas e recolher o que estava de fora, para que nada fosse carregado. Este acampamento foi inspirador para nós. O lugar era maravilhoso e estávamos totalmente isolados de tudo e todos, um lugar inesquecível da viagem.
Bom demais estar inserido na natureza!
Depois deste acampamento pegamos uma boa subida e depois descemos forte até chegar a Epizania, onde já começava novamente o asfalto. Lá conseguimos um espaço no posto de saúde local para dormir e o Kico aproveitou para se consultar com o médico, pois tinha pegado uma diarréia, que no dia seguinte acometeu o Caseh também.
Foge não, menino!
Quando acordamos em Epizania, o tempo estava muito feio e não estávamos animados de pedalar, então resolvemos tomar um ônibus para Cochabamba. A chuva molhava o vidro do ônibus, e quando ela se foi, nos sentimos mal de ver a estrada passar… e era só descida! Somos cicloturistas e a muito tempo nao entravamos em um ônibus, foi agoniante. Até que em um momento de lucidez o Caseh disse: “Vamos sair desse ônibus e pedalar!”. Os três concordaram na hora e fizemos o ônibus parar no meio do caminho, depois de andar uns 60Km.
Arrumamos as bicicletas e pegamos uma descida forte até chegar a Punata e o povoado chamado San Benito, onde conseguimos uma sala para dormir no Colégio Papa Juan, um colégio de freiras. Lá fizemos nosso primeiro plantio de mudas em terras estrangeiras. Junto com o professor de agropecuária e alguns alunos, plantamos 38 mudas de lingustos em um jardim. O colégio tem uma bela plantação com milho, maçã, hortaliças e até uma criação de porquinhos da índia (conhecidos por aqui como Cuy).
A interação com a garotada boliviana tem sido muito positiva. São as crianças os melhores professores de espanhol e é um sentimento muito bom mostrar para eles fotos da nossa viagem e ver seus olhos até brilhando de emoção.
Galera do Colégio Papa Juan
Gary nos ajudando no plantio
De San Benito foi só plano e descida até Cochabamba, onde chegamos direto para a casa da Nildes, onde ficamos alguns dias para conhecer a cidade. Nildes é uma amiga que fizemos por conta da Priscila, grande amiga que conhecemos em Pirenópolis-GO, já durante a viagem. É a rede de pessoas se crescendo cada vez mais.
Chegando em Cochabamba pegamos um trânsito infernal!
Sustentabilidade
Nesse caminho vimos muitas plantações nos vales, um manejo sustentável de hortaliças e principalmente morango. Ao lado de cada plantação tem um lago para represar a água da chuva. Impressionante como o povo do alto se adapta às condições adversas do meio-ambiente dessa região.
A grande maioria das contruções da região são de adobe, uma maneira barata e sustentável de se contruir. A técnica de contrução é milenar e os tijolos de terra, misturado com mato e cascalho são resistentes ao frio e ao tempo. Conhecemos no caminho algumas contruções com mais de 100 anos.
Na chegada em Cochabamba, uma das represas que abastece a cidade estava praticamente vazia, devido ao atraso nas chuvas deste ano. Qual será as causas dessa seca em pleno verão?