A Bolívia é um país dividido entre dois povos: os collas e os cambas. O estado de Santa Cruz é o mais rico, de relevo plano e produtivo, onde estão as indústrias e a agropecuária. Essa região do país é a terra do dinheiro e dos cambas, que são os mestiços, decendentes de outros países. Os grandes vales e os andes é a terra dos Collas, povo nativo que vive sua cultura ancestral, misturados a sociedade contemporânea.
Mulher manuseando as folhas de coca no estado de Santa Cruz
Santa Cruz se diz autônoma e quer ser idependente do restante do país. Ganhamos na capital do estado uma cartilha: “A Guerra separatista de Santa Cruz”, que conta um pouco da história dessa “guerra” que separa a Bolívia. Essa divisão causa um grande racismo e preconceito de ambas as partes, afetando as áreas política, econômica e social do país.
Santa Cruz – Os Camba
O povo camba é bem brasileiro. Galera descolada, escutam sertanejo, gostam muito de karaokê e aquelas máquinas de música que coloca moeda. Muito dos que conhecemos disseram já estar juntando grana para ir na copa no Brasil. As cidades já estão invadidas pelos fast food chinês de frango, o famoso Pollo con fideo y papas, que seria o frango com macarrão e batata frita. O povo camba nos recebeu muito bem e conquistamos alguns amigos que com certeza fizeram muita diferença em nossa passagem pela Bolívia.
Mercado em Santa Cruz de la Sierra
Ainda no estado de Santa Cruz encontramos os menonas, um povo com cara de Europeu, que os homens usam macacão e as mulheres vestido longo. Donos de terra e de grandes máquinas, foi um povo que nos chamou atenção. Andam de carroças ou uns tratores puxando uns trailler lotado dos menonas. Existem muitas versões sobre sua cultura, uns dizem que as mulheres tem que ter o máximo de filhos possíveis, outros dizem que andam de trator para os jovens não poderem ir muito longe. Escutamos uma história que tem uma senhora com 399 descendentes, é mole? Nos chamou atenção o dia em que uma família passava de carroça na beira da rodovia e um garotinho descia da carroça em movimento, pegava um lixo no chão e corria novamente para a carroça, parecia ser a diversão dele. O fato é que aquela gente loira de pele branca e olhos claros, no meio dos bolivianos é um contraste muito grande.
Menonas
Menona na carroça
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Andes – Os Collas (indígenas)
Mulher no alto dos andes
O restante do país é na altitude, nos grandes vales e nos andes. O povo nativo ainda vive de forma primitiva, as mulheres em geral usam duas tranças e uma saia nos joelhos, sempre com pano muito colorido nas costas. São elas que carregam o peso, fazem uma trouxa com esses panos coloridos e carregam de tudo ali: bêbe, lenha e até balaios. Os homens usam calça social e camisa de botão. Eles normalmente trabalham na roça plantando, como motoristas de van e ônibus ou fazendo manutenção nas estradas. A cultura muda muito em poucas distâncias. Em alguns lugares dos andes os homens usam coletes e tocas muito coloridas e contrasta com o ambiente seco, frio e sem vida da altitude, que por onde passamos chega a 4.500 metros.
Galera de toca colorida
Culinária
A comida é muito diferente, eles comem até cabeça de porco, cozida dentro da de boi, gelatina de pata de cavalo e por aí vai. Aproveita-se de tudo!
Picante de Pollo
Um almoço tradicional aqui é uma sopa de entrada, chamado de primeiro e um segundo prato, que é arroz, batata e alguma carne: chuleta, frango e cordeiro são os mais comuns. O povo aqui também gosta de uma pimenta, mas só de uma espécie, a Ají (arrí). Em todo restaurante tem um molho dessa pimenta sobre a mesa.
A higiene da galera também não é nada boa e comer em restaurantes bolivianos pela estrada é sempre uma situação de risco. Os bolivianos não são muito bons para preparar carne de boi, então estamos preferindo comer frango e cordeiro, que sempre é melhor por aqui.
Os nativos dos Andes vivem em condições extremas. Muitas vezes não conseguimos comprar nem um biscoito e quando se vê o local e as condições que vivem esse povo, conseguimos entender porque eles aproveitam tudo: precisam sobreviver.
Já comemos bastante coisa esquisita nessa temporada na Bolívia. Suco de balde, sopa de “bago”, linguiça que mais parecia um bolo de farinha e carne… Nessa brincadeira nós três já pegamos diarréia brava no país. Brincamos que a diarréia é quase um ponto turístico da Bolívia.
Artesanato
Artesã no centro de artesanato de Japo
No alto dos andes que vimos os primeiros artesãos bolivianos, que fazem tecidos, cachecol, tocas e trabalham com lã de llama, alpaca e ovelha. As mulheres enquanto pastoram os animais, ficam com um bolo de lã em uma mão e um carretel em outra, fazendo os fios. O trabalho é todo artesanal, com uma bonita combinação de muitas cores.
Costumes e crenças
“Como fazem com mulheres? Estão a 10 meses sem?” Essa foi a pergunda de um camponês em Pojo, a 4.200m de altitude. Para eles não é normal trocar de mulher. Depois que se casa, não se separa de forma alguma. Mulheres que são deixadas pelo marido, são excluídas e dificilmente conseguem outro marido. Esse mesmo camponês nos contou de um costume onde tanto os homens, quanto as mulheres fazem encontros, tomam álcool e brigam, caem no tapa mesmo, só não sabemos valendo o que.
Igreja Católica no centro de Santa Cruz de la Sierra
A religião é cristã, mas algumas pessoas ainda crêem na Deusa Inca da Terra “Pachamama”.
As crianças cantam o hino nacional todos os dias antes das classes, e nesse momento são tratadas como “soldaditos”.
Ficamos sabendo de algumas coisas bizarras, que nao sabemos se são verídicas. Dizem que antes de fazer qualquer construção, para que a casa seja protegida, alguma vida tem que ser sacrificada. Falaram até que em alguns casos enterravam as pessoas vivas na fundação das casas.
Língua
A Bolívia tem mais de 32 dialetos, sendo 4 as línguas mais importantes: Castellano, Quechua, Aymara e Guarani. No alto dos andes se fala muito Quechua e Aymara, e alguns antigos pouco falam castellano. Na escola estudam lingua 1 e 2. Em algumas regiões o Quechua é mais forte e em outras o Aymara, mas todos falam pelo menos uma das duas.
Sustentabilidade
Senhora colhendo batatas
Os campesinos, que são a maioria no país, plantam geralmente o básico para sobrevivência, batata, cenoura e hortaliças em geral. Os animais, gado, cordeiros e llamas são pastorados por crianças e adultos nas beiras das rodovias, ou ficam soltos nos morros de peder de vista. As condições são muito difíceis, além da altitude e do frio, o terreno é muito acentuado e para camponeses chegarem em suas plantações ou juntarem sua criação têm que andar muito pelas grandes montanhas andinas.
O povo do alto economiza muita água e em alguns pontos da serra brota água. É muito comum ver poços de armazenamento de água da chuva, que ficam espalhados pelas plantações nos grandes vales.
Nos chamou atenção que eles lavam copos, pratos e talheres em 2 baldes com água. Uma solução sustentável, mas que muitas vezes se torna “porca”, porque alguns não trocam aquela água o dia todo, aí também não resolve. Alguns brasileiros nos disseram: “Eles reclamam que gastamos muita água! Lógico, tomamos banho, lavamos roupa, lavamos louça…”. Tomara que encontremos o caminho do meio.
Feira em Paillon
No país todo o que mais tem são os mercado popular e feiras de rua. É possível encontrar abacate, ameixa, banana, pêssego, maçã, tomate, pimentão, cenoura, beterraba e o que achamos muito interessante é que o granel é permitido. Compramos macarrão, arroz, feijão, tudo a granel e passamos a fazer nossa comida, para evitar as caganeiras. As feiras no interior do Andes é semanal, e se não fizer sua provisão direitinho, vai passar aperto. Isso aconteceu conosco, perdemos a feira e passamos um perrengue pra poder conseguir mantimentos para fazer nosso rango.
Chegando em Oruro
O lixo dos produtos industrializados estão espalhados pelas rodovias e cidades da Bolívia. No interior, quando não são queimados, as garrafas Pet, sacolas e latas de alumínio, principalmente, estão espalhados pelas ruas, estradas e rios. Tem quem leve esse lixo para os lugares mais remotos, mas não tem quem o colete, pois as embalagens vazias não tem valor.
Não existe saneamento básico pelo interior do país, esgotos escorrem no meio das ruas. Os banheiros secos são buracos no chão que depois são tampados. É triste ver o povo caminhando e as crianças brincando em meio ao barro de merda como se nada tivesse acontecendo.
Pelo interior do país, quem tem casa de alvenaria é diferenciado. As construções em Adobe são as mais comuns. O adobe é bem grande, feito de uma mistura de barro, cascalho e mato, parece ser um ótimo isolante térmico para o frio da região.
Pedalando pelo pantanal Boliviano
Nos chamou muita atenção no estado de Santa Cruz é que muitas regiões estão com sua mata nativa preservada. Eles criam gados e plantam no meio dessa mata, garantindo a preservação da natureza. O bioma parece ser um cerrado misturado com o pantanal.
No alto dos Andes não se vê sequer uma árvore devido ao clima extremo, à altitude, frio e vento intenso. O verde que existe é das plantações nos vales ou em cercados de pedras. A mata nativa das montanhas são arbustivas, cactus e um capim amarelado, que no inverno somem por debaixo da neve.
A seca vem castigando todo o país, vimos várias lagoas secas e poucas chuvas.
Governança
O presidente Evo Moralles é colla e odiado pelos camba e seu povo também não está muito feliz com o que o presidente vem fazendo. Chegando na fronteira ficamos sabendo um aumento de 85% no preço dos combustíveis. O povo parou o país em um movimento que foi chamado de “gasolinaço” e Evo voltou atrás. Vieram agora 2 aumentos seguidos, dessa vez no preço do açúcar.
Em Oruro presenciamos o “paro nacional”, que parou o país inteiro. Os trabalhadores foram para as ruas pedir um salário digno. Uma marcha de mineiros e outras classes de trabalhadores percorreu as ruas de Oruro soltando dinamites e gritando mensagens em prol da classe e contra o governo nacional. Nessa passeata vimos as mais diversas caras do trabalhador Boliviano, uma experiência muito rica.
Bolivia Brasileira
Outra coisa que tem muito na Bolívia também é brasileiro. A grande maioria faz faculdade de medicina, que por aqui custa em média 150 dólares mensais e com um pouco mais que isso, se aluga um bom apartamento também. Em Santa Cruz e Cochabamba é gente falando português pra tudo que é lado, se encontrando nos restaurantes de comida brasileira. As noitadas de funk e samba fazem a alegria dos estudantes.
Músicas brasileiras em português ou traduzidas são muito comuns em toda a Bolívia, principalmente o sertanejo. O governo brasileiro investe muito por aqui também, além de estradas financiadas pelo nosso país, parte da obra do Cristo de la Concordia, uma espécie de Cristo Redentor de Cochabamba, foi um presente da Petrobrás para a Bolívia.
Visão do Brasil
Quando passamos de bike com nossas bandeiras gritam: “Du Brasilll” ou “Brasilll, país mais grande do mundo!”. Eles conhecem os clubes de futebol, jogadores e as mulheres com pouca roupa. Todos falam também do ex-presidente Lula, gostam muito dele. Praticamente só conhecem a cidade de São Paulo e alguns tem o sonho de ir pra lá trabalhar.
Painel do Lago Titicaca com o templo Pilcocaina, na Ilha do Sol
Quando saímos de La Paz já sabíamos que estávamos nos dirigindo para um lugar único no planeta. O Lago Titicaca fica na divisa da Bolívia e Peru há 3850m do nível do mar e foi muito importante para antigas civilizações como os Incas.
Acampados às margens do lago Titicaca
A sensação que se tem quando se está nas margens do lago é de estar no mar, porque o lago é gigantesco e em alguns pontos não se vê o outro lado. A diferença é que devido à altitude, faz muito frio na região e a água é geladassa e complica de nadar no lago (nós demos um tchibum de batismo).
Primeiro contato com o Lago Titicaca no caminho de La Paz a Copacabana
Nosso primeiro contato com o lago foi no caminho para a Isla Suriqui, em uma rota alternativa que liga La Paz a Copacabana e foi feita para a peregrinação da Semana Santa. Pedalamos pelas ilhas e dormimos uma noite na Isla Suriqui, que tem uma vila de campesinos e pescadores morando lá, vivendo de forma bem peculiar e afastados da sociedade.
Com a criançada no mirante da Isla Suriqui
Mas nosso destino era Copacabana e chegamos lá depois de atravessar o lago pegando três barcos, de uma ilha para outra. Em uma das travessias, o moço que tava remando nos disse: “Não gosto dos barcos a motor, usa gasolina, polui e não é tão divertido!”.
Atravessando o lago Titicaca de barco
Chegamos na cidade em véspera de Semana Santa e tinha um movimento de bandas tradicionais na rua e muitos lugares enfeitados com flores.
Copacabana
Copacabana é a principal cidade turística do lago Titicaca. O nome bem conhecido por nós brasileiros, vem mesmo da praia de Copacabana, pois as montanhas em volta da cidade dão uma certa semelhança com o Pão de Açúcar. Boa parte do seu comércio é voltado ao turismo, com muitos restaurantes, bares, hotéis, albergues e agências de turismo. Os principais pontos turísticos da cidade são o calvário na montanha que beira a cidade, com um mirante maravilhoso do lago e as ilhas do Sol e da Lua. E se passar por Copacabana, tem que comer uma truta nos quiosques que ficam às margens do lago.
Vista do porto de Copacabana
Demos um rolé pela cidade e pela orla do lago, subimos no calvários, mas o que marcou nossa passagem pela cidade foi a celebração do nosso aniversário de viagem. Quanta história rolou nesse ano de estrada!
Para comemorar, alugamos um barco a vela de um pescador, tomamos 15 minutos de aula de como velejar e fomos só nós três numa missão de percorrer os cerca de 10km de Copacabana até a Ilha do Sol e voltar em segurança.
Amanhecendo durante a navegação no Lago Titicaca
Como o pescador nos advertiu, teríamos que começar a velejar às 5h da manhã para pegar o vento no sentido da ilha e voltar às 13h para aproveitar o vento no sentido da cidade. Acordamos cedo, pegamos o barco no cais e começamos nossa navegação, ainda no escuro da madrugada. Saímos remando da baía de Copacabana, levantamos a vela e pegamos o primeiro vento com vela cheia antes do amanhecer.
Curtindo uma navegação no aniversário de viagem
Só que na ida não tivemos sorte, o vento foi ficando fraco até a hora que parou. Seguimos o resto do caminho até a ilha remando, nos revezando entre os dois remos e o timão do barco. Com algumas pausas para comer pão com sardinha e tomar as três cervejas que levamos para comemorar o aniversário. Demoramos mais que o previsto, mas conseguimos chegar na Ilha do Sol, no lado norte onde tem as ruínas Incas do Templo Pilcocaina, os Jardines del Inca e a Escalera del Inca.
Templo Pilcocaina na Ilha do Sol
Escalera del Inca na Ilha do Sol
Ficamos lá contemplando aquele mundo de água, as montanhas brancas da Cordilheira Real, as ruínas, tudo compondo um só visual de tirar o fôlego. Às 13h saímos e pegamos um vento bom até chegar em Copacabana.
Ilha no Lago Titicaca
Primeira missão como velejadores foi cumprida com sucesso, uma experiência que vamos levar pra frente. Vai que depois de dar a volta no mundo por terra não cismamos de fazer por água?!
O Lago Titicaca e principalmente as pessoas que vivem ao redor dele nos ensinou muito. Sustentabilidade está na simplicidade de viver da natureza, de explorar seus recursos sem destruir e isso esse povo sabe fazer muito bem!
Em La Paz, na Casa de Ciclistas, conhecemos Jean-Christoph e Catherrine, um casal de cicloturistas suíços que viajam em uma bicicleta Tandem. Eles são montanhistas também e nos mostraram o blog que eles e mais uns amigos sobem grandes montanhas européias com uma Jaccuzzi! Vale a pena conhecer o site Extreme Jaccuzzi e ver o banho quente no topo do Mont Blanc, maior montanha dos Alpes.
Certo dia eles estavam na casa cheios de equipamentos de montanha, que tinham alugado para subir a montanha Huayna Potosi, com seu cume a 6088m de altitude. Dois dias depois chegaram e nos mostraram as fotos. Ficamos de cara e queríamos ver aquelas maravilhas com os nossos olhos. Fomos em várias agências e decidimos subir com o guia que eles tinham nos indicado, Juancho, da agência Altitud 6000. O preço: U$100 por pessoa. Isso já era fim de tarde e agendamos a subida para o dia seguinte. Detalhe, nenhum dos três nunca tinha posto o pé na neve. Fomos para casa ajeitar nossas coisas para partir no dia seguinte de manhã.
Primeiro dia – A preparação
Chegamos na agência às 8:30, e Juancho analisou nossos equipamentos para ver o que serviria para subirmos, e nos emprestou outros. No caminho para montanha compramos as coisas para comer e seguimos em seu carro, junto com sua mulher Trifonia, até chegar no pé da montanha Huayna Potosi há 4700m. Lá perto funcionava uma antiga mina de estanho que há muitos anos era uma das mais importantes da Bolívia. Hoje ainda funciona para pequenas quantidades de extração e o pior é que contamina uma represa que provê água para La Paz. Vimos um cemitério só de mineiros que morreram lá.
Cemitério de mineradores e a montanha Huayna Potosi
Primeira vez que vimos e tocamos na neve! Parece bobeira, mas isso era muito importante para nós. Primeiro dia de caminhada foram poucos kilômetros e o mais difícil foi se adptar com a bota para neve, cerca de 1,5kg cada pé. O tempo estava fechado e nevou! Muito bonito ver aqueles flocos de gelo voando! Diferente demais para nós.
Nevando enquanto subíamos ao refúgio alto
O primeiro dia de subida leva até o Refúgio Alto há 5180m e lá conhecemos uma galera de gringos que iriam subir a montanha. Na parede do abrigo, muitas assinaturas e dedicatórias de quem já subiu. Para nossa surpresa, uma bandeira de Minas Gerais com os guerreiros conterrâneos que já fizeram essa aventura. À tarde, Juancho nos deu um breve treinamento de como caminhar na neve usando os crampones e usar os equipamentos de segurança. Dormimos às 19 horas para acordar 1 hora da madruga, pois às 2h era o início da caminhada.
Tomando um chá de coca no refúgio alto. Reparem na bandeira de Minas Gerais na parede
Segundo dia – O cume do Huayna Potosi
Acordamos 1:15 am, tomamos um café reforçado, arrumamos as coisas e começamos a caminhar às 2:15 am, todos juntos, amarrados uns aos outros por uma corda. O céu estava estrelado, não ventava e estava “calor”, cerca de 5ºC.
O início da caminhada às 2h da matina
“Não penso muito nas dificuldades, quero andar, chegar no cumbre e ver paisagens que marcarão minha vida” Caseh Werner
Caminhar no gelo era missão muito nova para nós. A subida era forte e faltava ar. Juancho nos deu folhas de coca para mascar e melhorou bastante. Logo avistamos La Paz, toda iluminada, e nós isolados no meio da montanha nevada! Chegamos aos 5850m quando começou a amanhecer. Nesse momento tivemos a noção de onde estávamos.
Cores incrívels no amanhecer
“Ter de fazer minhas necessidades em uma montanha nevada há mais de 5800m, no meio da madrugada, fazendo -5ºC foi realmente uma experiência inesquecível. Mas seguir a subida na situação que eu estava era impossível.” Kico Zaninetti
Podíamos ver outros cumes de montanhas da Cordilheira Real abaixo de nós. Os primeiros raios de sol refletiam nos glaciares, pintando a neve de rosa e nos mostrando uma paisagem que só vimos parecido nas revistas de aventura. No caminho ultrapassamos alguns grupos e cruzamos com outros voltando, que haviam desistido.
A cada momento a neve era pintada de uma cor diferente
Juancho não parava de falar: “Vamos chicos, apurente!”. E nessa seguiamos, um pé na frente do outro, cada vez mais lento, por conta da altitude, os passos eram como de astronautas! Quando chegamos nos 6000 metros, quase no cume, sentimos muito o peso da altitude, o cérebro já não funcionava direito, o corpo não respondia aos comandos e era pirambeira pra tudo que é lado.
Uma pausa para descansar perto dos 6000m
Chegamos na crista que leva até o cume, e caminhamos por 250m em um espaço de menos de 1m de largura, com penhasco para os dois lados e qualquer erro seria fatal. Quando chegamos no cume a 6088m de altitude, misturou fadiga física e psicológica, com o visual surreal e a emoção tomou conta de nós. Subir até o cume da Huayna Potosi foi uma experiência única, muito difícil, onde chegamos no nosso limite.
Na crista, poucos metros antes do cume do Huayna Potosi
“Quando estava na crista, veio na minha cabeça tudo que passei, desde o início da viagem para estar ali, olhei pro Tiago e pro Kico, os dois muito cansados e tudo isso misturado com a paisagem que meus olhos viam fez desse momento um dos mais emocionantes dessa viagem.” Caseh Werner
“Quando chegamos no cume, a sensação de vitória, o cansaço, o momento espiritual que venho vivendo e o visual estonteante das montanhas me fez cair em um choro de uma mistura de muitas emoções.” Kico Zaninetti
No cume tiramos algumas fotos com a bandeira do Brasil e a de Minas Gerais (que pegamos no abrigo, mas já está de volta lá na parede e com as nossas assinaturas) e do visual maravilhoso. Fizemos um lanche reforçado para aguentar a descida até o abrigo.
No cume!
Visual da Cordilheira Real, do cume do Huayna Potosi
A descida teve que ser rápida, pois ja eram 8:40 am e o sol forte já derretia a neve e caminhar na neve molhada é uma péssima idéia. Descemos sem muitas paradas, com Juancho nos apressando e a passos largos. Faltando pouco para chegar no abrigo a neve já estava bem úmida e agarrava na bota, deixando o chão escorregadio. Tomamos alguns tombos mas chegamos bem ao abrigo, destruídos e todos com caganeira.
Avistando o abrigo
Relaxamos por cerca de uma hora e descemos até o carro. Chegamos em La Paz, meio sem entender direito toda essa experiência. Caminhamos em um dia cerca de 12 horas, até 6088m de altitude, subimos Huayna Potosi!
Um dos principais destinos dos turistas aventureiros em La Paz, a Estrada da Morte (Ruta de la Muerte) também conhecida como Death Downhill, é uma estrada antiga que liga La Paz à pequena cidade de Coroico, situada no vale dos Yungas, no meio da floresta. Esta estrada é uma descida de 70Km que começa em La Cumbre (30Km de La Paz), há 4700m de altitude e termina em Yolosa, um povoado com altitude de 1200m.
A estrada foi considerada há uns anos atrás como a mais perigosa do mundo. Realmente, para caminhões e ônibus a estrada deve ser um pesadelo, mas hoje o trânsito por lá se restringe a poucos veículos para levar turistas que querem conhecer a estrada, pois já possui uma nova estrada asfaltada que leva para o lugar e todo o tráfego pesado passa por lá.
Para ciclistas, a estrada não é tão “de la muerte” assim. Claro que se for um psicopata da velocidade, tem chance de passar direto em uma das muitas curvas sinuosas e vazar despenhadeiro abaixo, mas se descer de boa, fazendo cicloturismo ao invés de downhill, não tem risco e a experiência da viagem será sensacional!
Nós não queríamos ir com as agências de turismo aqui de La Paz. Já temos nossas bicicletas e queríamos passar uma noite em Coroico (as agências fazem bate-volta no mesmo dia). Então conversamos com os outros ciclistas que estavam hospedados conosco na Casa de Ciclistas em La Paz: o casal suíço Catherine e Jean-Christoph e o francês Alex Gauquelin e todos animaram de formarmos um grupo para fazer esta estrada.
Equipe: Jean-Christoph e Catherine (Suíça), Kico, Caseh e Tiago (Nova Origem) e Alex (França)
Cristian, o dono da Casa de Ciclistas é também guia de ciclismo e conhece tudo na região. Nos deu as dicas de como fazer por nossa conta. Combinamos com uma van adaptada para carregar bicicletas, para nos levar até La Cumbre.
Acordamos cedo, encontramos a van, ajeitamos nossas bicicletas no bagageiro e seguimos na mobilidade a subida até La Cumbre, ponto situado há 30Km da cidade, há uma altura de 4700m, de onde começa a descida.
Chegando em La Cumbre já foi uma experiência fantástica. Em meio à Cordilheira Real, o local fica cercado de montanhas cobertas de neve, com vista para a montanha Huayna Potosi e com uma belíssima lagoa.
O pedal começa entre os picos nevados em La Cumbre (4700msnm)
A partir dali tem duas opções para os primeiros 30Km de descida: por asfalto (usada pelas agências de turismo) ou pelo trecho de terra e pedra da antiga estrada. Escolhemos ir pelo segundo trecho, que é o início de outro rolé famoso de bike de La Paz, conhecido como Ghost Ride.
A estrada de pedra passa beirando montanhas gigantes, de onde descem várias cachoeiras de água de desgelo formando pequenos rios que cortam pelo meio da estrada. A maioria deles se cruza pedalando mesmo, mas algumas vezes tivemos que descer da bicicleta para atravessar o canal d’água.
Os primeiros 30Km fizemos pela estrada chamada de Ghost Ride
O trecho termina em uma ponte há 3100m que divide o caminho para Chulumani, mas para ir a Coroico tem que tomar a subida à esquerda, para Unduavi e chegar ao asfalto. Uma subida bem pesada, mas curta, de apenas 2Km. A partir daí, são cerca de 10Km de aslfalto, em um trecho de pequenas subidas e descidas.
A única subida do trecho. Pesada, porém curta 2Km
Pegamos uma neblina forte nessa parte, que não dava para ver 20m a nossa frente e uma chuva leve nos tomou. Não estava tão frio, então foi tranquilo. Chega-se em um ponto, onde uma placa indica que não se pode mais seguir de bicicleta pelo asfalto e aí tem uma entrada para a direita para outra estrada de terra. É aí o início da famosa Ruta de la Muerte, mais 30Km de pura descida até o povoado de Yolosa.
Pegamos uma neblina forte no trecho de asfalto
Só de entrar na estrada já temos a sensação do choque de mudança de ambiente. A vegetação, que antes se restringia a arbustos, gramíneas e poucas árvores, se transforma em uma enorme massa verde, com árvores e samambaias gigantes.
A Estrada da Morte (Ruta de la Muerte) desce serpenteando a montanha
A estrada tem apenas 2 a 3m de largura e desce beirando um cânion verde. Do lado esquerdo é um precipício de centenas de metros de profundidade. Uma das partes mais massa da descida são duas cachoeiras que caem no meio da estrada e temos que passar por baixo da queda d’água.
We survived the Death Road!
Na beira do precipício!
Cachoeiras caem no meio da estrada
A natureza é muito preservada e com uma mata muito diferente da que estamos habituados. A sensação é de estar pedalando na floresta em uma trilha estreita, beirando um penhasco de um enorme vale verde.
Nós descemos tranquilos, parando várias vezes para tirar fotos do visual fantástico e sem correr riscos. No meio da tarde chegamos no povoado de Yolosa, há 1200m de altitude. Foi uma descida de 3500m em um só dia! Dali até Coroico é uma subida de 8Km. Decidimos pegar uma condução de 10Bs por cabeça para subir este trecho. Caseh e Alex subiram pedalando enquanto esperávamos a caminhonete e no meio do caminho, quando passamos pelos dois, Caseh tomou a condução também.
Nos divertindo com a Arara em Yolosa
Chegamos no fim da tarde em Coroico e nos instalamos no Alojamento Coroico, ao custo de 20Bs por pessoa. De noite saímos para jantar e dar uma volta na praça dessa pacífica cidade, que fica no topo de uma montanha no meio dos vales Yungas.
No dia seguinte, para fechar com chave de ouro, descemos de bicicleta de Coroico até Yolosita, passando por uma estrada cercada de verde, plantações de café, laranja e outras frutas. Depois da baixada, mais 4Km de pedal pelo asfalto até Yolosita, onde conseguimos uma “carona” (custou 15Bs cada) em uma caminhonete para fazer a subida de 70Km e nos deixar novamente em La Cumbre.
Descendo de Coroico a Yolosita no dia seguinte
Curtindo nossa "carona" de volta, de Yolosita até La Cumbre
De lá, pegamos a descida para La Paz. Os suíços foram todo o trecho por asfalto. Nós três e o Alex tomamos uma quebrada para a esquerda e fomos por uma estrada usada pelos mineiros, que passa por trás de uma enorme represa e de minas de estanho.
Voltando para La Paz pelo caminho da represa
Depois voltamos ao asfalto e terminamos os últimos 20Km de descida até o centro de La Paz e a Casa de Ciclistas.
Como fazer a Ruta de la Muerte sem agências ou guia
Fizemos este trecho sem agências nem guia e só vimos vantagem nisso. O custo ficou muito reduzido, tivemos o tempo que quisemos para parar e tirar fotos, passamos a noite em Coroico e fizemos um outro rolé de volta para La Paz.
O custo médio das agências aqui para fazer um dia de passeio até Coroico é de 450 Bs (R$115). Nós gastamos 140Bs (R$35) cada, incluindo o alojamento e jantar na cidade.
Nossos custos (por pessoa):
Compras (lanche): 25Bs
Transporte La Paz – La Cumbre: 25Bs
Transporte Yolosa – Coroico: 10Bs
Alojamento: 20Bs
Jantar: 30Bs
Café da manhã: 15Bs
Transporte Yolosita – La Cumbre: 15Bs
Total por pessoa: 140Bs (R$ 35,00)
O único problema é que não encontramos lugar que aluga bicicletas aqui em La Paz. É bem provável que tenha, mas não vimos nenhum. Se tem sua própria bicicleta, nem pense em ir nas agências.
O que seria um dia em Oruro acabou se transformando em 45 dias e o início de uma nova etapa na viagem. Chegamos em Oruro para arrumar o pneu da bicicleta do Tiago e dar uma olhada na cidade, sem grandes pretensões.
A entrada da cidade é muito feia e suja. Empresas de mineração, vários empoçados de água podre, muito lixo, crianças e cachorros no meio dessa bagunça, essa foi a primeira impressão que tivemos quando estávamos chegando.
Crianças na sujeira da entrada de Oruro
Era época de pré-carnaval e o costume do carnaval boliviano é jogar água e espuma na galera. Os balões de água (globitos), armas de atirar água e os spray de espuma são sucesso em Oruro, onde tem o principal carnaval do país. Para não fugir da regra, fomos recebidos com spray de espuma na cara.
Pouco tempo depois, Marcelo, brasileiro, nos reconhece pelas bandeiras nas bicicleta e depois de um papo nos acompanhou para almoçar e nos apresentou a Eber, estudante de medicina que mora na cidade. Ele nos convida para ficarmos em seu apartamento que divide com mais três brasileiros que ainda estão no Brasil, pois as aulas só começariam daí algumas semanas.
Espaço confortável, cozinha para fazer nosso rango (e fizemos bastante comida), máquina para lavar nossas roupas. Acabou que resolvemos ficar uns dias para arrumar nossas coisas e Tiago se recuperar da sua gripe misturada com efeitos da altitude. Nesse tempo fomos vendo aos poucos o estilo de vida bem peculiar do orureño e os preparativos para o carnaval que estava por vir.
Temos que destacar o gosto por marchar que os cidadãos dessa cidade tem. Todo dia, sem excessão, passava alguma marcha de protesto por baixo da janela do apartamento. A maioria exigindo melhores condições salariais e de emprego. O pior de todos é quando a marcha era de mineradores. Eles chegavam explodindo dinamite pelas ruas às 8h da manhã e ter isso como despertador não era muito legal.
Faixa do Che em uma marcha pelas ruas de Oruro
Homens e mulheres com faixas, panelas, megafone, marchando organizadamente, gritando seus direitos e muitas vezes tomando um trago. Faixas do Che Guevara eram freqüentes, já que o revolucionário tentou uma ação na Bolívia que resultou na sua morte.
Quando não tinha marcha, o que animava as ruas era o ensaio do carnaval. Os grupos desfilavam sem as fantasias, mas dançando suas coreografias e com as bandas tocando os ritmos típicos. Todo ensaio parava as ruas e muitas pessoas assistindo.
Ensaio para o carnaval nas ruas de Oruro
Carnaval de Oruro
Vendo todo esse movimento e com convite do Eber para dar mais um tempo por aqui, decidimos ficar para conhecer o famoso Carnaval de Oruro, declarado Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade pela UNESCO.
Tobas, estilo típico do carnaval boliviano
Nos dias de carnaval, do nada a cidade lotou! Muito movimento, gente do mundo inteiro pelas ruas, comércio um pouco mais caro que nas semanas anteriores, globitos, spray de espuma e muito álcool.
A prefeitura separa um circuito de ruas e avenidas por onde vão passar os desfiles oficiais do carnaval e nessas ruas foram instaladas arquibancadas. Algumas gratuitas e outras pagas, um pouco mais arrumadas.
Oso! Oso! Oso!
E aí no meio vem a festa. No sábado e domingo de carnaval, os conjuntos desfilam entre as arquibancadas lotadas, dançando os estilos tradicionais Caporales, Tinkus, Morenada, Diablada, etc. Os bailarinos fantasiados e fazendo suas coreografias, embalados pelas bandas com instrumentos de sopro e bateria.
A banda passa e anima a galera
Os principais temas são de devoção à Pachamama e sobre a história da Virgem de Socavon, padroeira da cidade. Um festival de cores e música, muito diferente do carnaval que estamos acostumados no Brasil, uma festa inesquecível.
Anjo, símbolo do estilo Diablada
Na segunda-feira de carnaval, ainda empolgados para curtir mais, saímos na rua e o que presenciamos foi desanimador. Não tinha mais nada! O carnaval acontece no sábado e domingo e depois todo mundo desaparece, acabou. Na terça-feira é feriado, mas também sem festa. É o dia oficial de molhar quem passa na rua.
Trabalho, estudos bíblicos e futebol
Passado o carnaval, pensávamos em partir para La Paz, mas uma boa surpresa apareceu. Tínhamos enviado alguns e-mails para contatos da área de web no Brasil e oferecemos nossos serviços para fazer freelance, já que o Kico e o Tiago trabalhavam como programadores de sites e sistemas.
Recebemos duas respostas positivas e dois serviços para levantar um trocado, já que nossa grana tá cada vez mais curta. Como a casa em Oruro estava de portas abertas para nós e ainda tinha internet, foi o local perfeito para ficar mais um tempo e matar essas duas demandas.
“Fiquei muito satisfeito de reestabelecer antigos laços da área de web e de estar usando o trabalho que sei fazer bem a favor da escolha de vida que tomei. Pedalando e programando, quem diria!” Kico Zaninetti
E durante esse tempo, chegaram os outros moradores da casa, primeiro a manauara Val e depois o casal do Mato Grosso, Túlio e Paula. Todos são pessoas fantásticas e acabamos fazendo parte desta “comunidade” brasileira em Oruro.
Val, Eber, Túlio e Paula, amigos de Oruro em mais um delicioso almoço
Eles chegaram bem no dia do aniversário do Caseh e para comemorar compramos um bolo e refrigerantes para cantar o parabéns.
Todos são fiéis da Igreja Adventista e nos convidaram para fazer estudos bíblicos e fazer a guarda do sábado com eles. Para quem não sabe, a Bíblia diz que o dia a ser guardado é o sábado, e não o domingo, como está nos mandamentos católicos. Então, evitamos trabalhar e fazer qualquer tipo de atividade no sábado e aproveitamos também para acompanhá-los na igreja e fazer estudos bíblicos em casa, onde tiraram muitas dúvidas que tínhamos sobre a Bíblia e a história de Deus e Jesus Cristo. Foram momentos de muita emoção e paz.
Como bons brasileiros e aproveitando a disposição para esportes que o Eber tem, toda semana jogamos futsal, na companhia do argentino Ricardo. Nos primeiros jogos, ainda não estávamos tão bem aclimatados (Oruro fica há 3850m de altitude) e botamos o pulmão pela boca depois de cada corrida.
Kico, Ricardo (argentino) e Eber, depois de uma partida de futsal
Passou um tempo e fomos nos acostumamos, aí o futebol já fluiu bem melhor. Formamos um time de brasileiros (com o argentino de brinde) e jogamos contra a galera boliviana. É difícil acompanhar o ritmo deles, mas nós temos mais futebol no pé, então deu pra fazer muito gol!
Por fim terminamos os trabalhos e nosso prazo na Bolívia estava expirando. Tínhamos que correr para La Paz para ir na migração e ganhar mais uns dias de prazo para conhecer os arredores de La Paz e também Copacabana, no lago Titicaca. Depois de uma despedida emocionada dos amigos de Oruro, pegamos um ônibus para chegar a tempo em La Paz e resolver essa treta burocrática.
Altimetria de Santa Cruz de la Sierra à Oruro (400m a 4500m)
Cochabamba está a 2500m de altitude e foi a primeira capital Andina que conhecemos. A cidade está situada em um altiplano e é cercada por montanhas, o visual é muito diferente e bonito. Ficamos uma semana lá, tempo de nos recuperamos da caganeira, de lavarmos nossas coisas e conhecer um pouco de Cocha.
Vista de Cochabamba
Nilds, brasileira que estuda medicina lá, nos acolheu em sua casa com muito carinho e nos apresentou mais amigos brasileiros que vivem por lá. Com essa galera tiramos um dia e fomos conhecer o Cristo de la Concórdia, cartão postal de Cochabamba.
Valeu Nilds! Nos vemos pelo Goiás!
Com a galera no Cristo de la Concórdia
Comendo a Pizza Interminable
Rumo a La Paz
As curvas da subida
Já saindo de Cochabamba, pegamos a primeira subida, de muitas curvas e pouco acentuada. No km 17 parece que chegamos no alto de uma montanha e de lá estamos pedalando por cumes de outras montanhas. De longe vimos a estrada por onde teríamos de passar e também a chuva que vinha em nossa direção.
Conseguimos um abrigo e a chuva chegou forte e gelada, deu medo imaginar nós naquela chuva sem abrigo. Aproveitamos para fazer uma sopa. A chuva parou já no final da tarde, pedalamos mais uns 4km e chegamos no povoado de Llavini e nos abrigamos na escola local. Brincamos bastante com as crianças, dançamos e demos boas gargalhadas! Essa interação é o melhor da história.
Criançada na escola do povoado Llavini
Fazer cicloturismo nos Andes é uma provação. Mais um dia de subida e mais subida. A estrada faz muitas curvas e de longe conseguimos ver para onde temos que subir, parece ser uma missão impossível com as bicicletas carregadas, mas quando conseguimos, a sensação de superação é forte. Neste trecho chegamos na casa dos 4000m e dormimos em mais uma escola no povoado de Pongo. Todos sentimos a altitude nas pedaladas, o coração parece bater na cabeça e falta oxigênio. Caseh foi o que mais sentiu a altitude, a noite deitou com a sensação de febre, corpo mole e dolorido.
Nessas subidas e na altitude, estamos pedalando uma média de 30km por dia. No caminho rolou um perrengue de chuva e frio. Chegamos nos 4200m e começou a chover, flocos, como neve! Sorte que estávamos em uma descida e logo apareceu uma casinha de adobe abandonada. Entramos e esperamos a chuva passar. Pedalamos um pouco mais até chegar em Confital, e mais uma vez dormimos em uma escola. Algumas crianças nos fizeram companhia enquanto preparávamos nossa janta.
Tiago e seus amigos de Confital
Os 4000m
Essa noite foi a mais fria da viagem, 3ºC. Acordamos, ajeitamos nossas coisas e as crianças começaram a chegar para aula. Muita neblina, frio e uma chuva fina. Algumas crianças de chinelo, todas vestidas com roupas andinas, bem peculiar. Fizeram uma formação de filas no pátio da escola e cantaram o hino da Bolívia, emocionante!
As cidadezinhas parecem ser muito tristes. A alegria parece estar somente no sorriso das crianças, que mesmo com suas barcas (chinelo feito de pneu) nos pés, pisando na água, no frio das montanhas, se divertem e riem por qualquer coisa. Os adultos não tem a mesma pureza e parecem carregar o peso de uma vida sofrida nas costas. Não é fácil viver no campo, onde tem mais pedra do que terra, muito frio, altitude e pouquíssima estrutura. Nessas horas nos damos conta do quanto somos privilegiados.
Nos sentíamos um pouco mal para pedalar, mas também não queríamos passar mais uma noite em Confital, então pedalamos somente 7km até o povoado Pojo. Lá fomos muito bem recebidos pela escola local. Conhecemos a Associação de Artesãos de Tecidos e compramos nossos gorros andinos. Rolou muita interação com as crianças, cantamos, dançamos e brincamos demais com elas.
Associação de Artesãos de Tecido de Pojo
O pai de uma das crianças ficou conversando conosco e nos contou que é cultura da cidadezinha homens e mulhers se juntarem para tomar álcool e lutarem entre si. Eles se casam e dizem ser fiéis e é muito raro ter uma separação. Está difícil de conseguir rango, quando encontramos alguma coisa é biscoito.
Quando estávamos saindo de Pojo, por sorte era dia de feira, que acontece uma vez por semana. Conseguimos comprar algumas bananas e legumes. Quando iniciamos nossa pedalada, um carro com adesivos da argentina nos parou. Era Emilio Scotto, o homem que está no Guinness Book por ter feito a maior viagem de moto do mundo, duas voltas ao mundo e mais de 700.000Km!
Emilio Scotto escrevendo uma dedicatória no livro que nos deu
Eles nos deu muitas dicas, motivação e seu livro The Longest Ride com uma bela dedicatória. Depois de mais subida, chegamos no ponto mais alto da viagem há 4500m, La Cumbre! Sensação boa demais de chegar nessa altitude, e de bike!
Em La Cumbre, há 4500m de bicicleta!
Em seguida começamos a descer e rolou um acidente. Kico estava na dianteira e ao passar ao lado de uns trabalhadores na estrada, reconheceu que eram os amigos que tinhamos feito em Pojo, freiou para falar com eles e Caseh e Tiago que vinha logo atrás se chocaram com a bicicleta parada e capotaram. A roda do Tiago virou um 8 e nossos amigos nos ajudaram a desempenar a roda com pisões e até dar para pedalar. Kico ficou muito abalado por ter provocado o acidente e passou um tempo deitado no acostamento até a adrenalina baixar.
Os amigos ajudando a arrumar a roda do Tiago depois do acidente
Ainda descendo, encontramos com uma dupla de cicloturistas japoneses que estam vindo desde o Alaska. Dia cheio de emoções!
Nos Andes sentimos falta de ver árvores e verde. As plantações são cercadas por muros de pedras, pois o vento gelado queima todas as plantas.
Os cicloturistas japoneses que encontramos na estrada
Dormimos em Lequepalca, não foi fácil arrumar lugar para dormir e quem nos solvou foi o médico Luiz do posto de saúde. Conversamos muito com ele, que nos contou um pouco sobre a saúde na Bolívia e na região. Ele nos disse que a mortalidade infantil é muito grande, que ainda morrem muitos de infecção intestinal e tuberculose. Segundo ele, existem famílias que vivem isoladas de tudo e que algumas nem estrada tem para chegar até suas casas.
Campanário do ano 1600 no povoado de Lequepalca
Aproveitamos o fim do dia para conhecer um antigo campanário, construção do ano 1600 que tem ao lado do cemitério da cidade.
No dia seguinte continuamos a descer por belos vales, beirando um rio, casas de adobe e plantações de quinua. Do nada o vale acabou e chegamos em uma imensa planície, o altiplano boliviano há 3900m de altitude! Os Andes é uma cadeia de montanhas incrível.
Não deu 10 minutos que estávamos pedalando no altiplano e nosso celular tocou. Era a irmã do Tiago dando a notícia que sua avó faleceu. Triste demais receber essa notícia, longe de casa e no meio da estrada. Na entrada para Oruro decidimos ir para lá e passar um dia para conhecer a capital folclórica da Bolívia e arrumar a roda do Tiago.
Chegando em Oruro
O que seria uma noite em Oruro rendeu mais de 45 dias, mas isso é outra histoŕia.
Para ir de Santa Cruz de la Sierra a Cochabamba existem duas opções: a estrada nova ou a antiga. A estrada nova está toda asfaltada, o caminho é um pouco mais curto e o trecho plano é bem maior. Na estrada velha (Antigua Carretera), a subida começa próximo a Santa Cruz e tem um trecho de 150Km de estrada de terra. Além disso, o noticiário informava que nessa estrada estava acontecendo vários deslizamentos de terra na região das cidades de Bermejo e La Angostura. Mas como a estrada velha é muito mais bonita e rica culturalmente, decidimos partir por ela, independente dos problemas.
Nos despedimos do pessoal do Alojamento Economico de Santa Cruz com um almoço de arroz com lentilha preparado pela Griselda, uma boa amiga que fizemos na Bolívia. Pedalamos 33km e chegamos a cidade de Los Tornos com muita chuva, trocamos um raio quebrado do Tiago e pernoitamos no Alojamento Gutierres, um lugar muito sujo e feio, que custou cerca de 50 bolivianos. A ansiedade aumentava, estávamos no pé da subida dos Andes, o tempo estava muito instável e o noticiário falava que a estrada estava interrompida por conta de deslizamentos.
Chegando nas primeiras, das muitas montanhas que subimos na Bolívia
Choveu a noite toda e pela manhã também, saímos do alojamento as 10 da manhã, quando a chuva parou. Na saída da cidade uma feira com frango, carne, tudo no meio das moscas. A falta de higiene nos impressiona cada vez mais aqui na Bolívia.
As monótonas paisagens de planícies que vinhamos pedalando desde o estado do Mato Grosso, no Brasil, enfim mudaram. Começamos a subir os Andes por uma estrada de muitas curvas, passando por grandes vales, beirando o rio Piray, sempre cercados por grandes montanhas.
Serpenteando entre as montanhas cobertas de verde vivo
Ficamos mais tranquilos quando passamos pelo trecho onde a estrada estava bloqueada. Algumas máquinas e homens ainda trabalhavam tirando pedras e barro da pista, mas a estrada estava liberada.
Homens trabalhando para limpar a estrada
Fizemos uma parada em Bermejo para almoçar e contemplar os belos paredões vermelhos da pequena vila.
Serra Vermelha em Bermejo
Continuamos a subir, com objetivo de chegar a Cuevas e no topo do morro, para chegar na cidade, a corrente da bike do Caseh arrebentou. Enquanto ele arrumava, parou um caminhão e Jaime, o motorista, nos convidou para irmos de carona com ele até Samaipata, que ficava há 25km de onde estávamos e que lá poderíamos pernoitar em seu chalé. A oferta de um teto e banho quente foi irrecusável.
Jaime, amigo de Samaipata
Samaipata é uma cidade turística e bem organizada, se comparada com os padrões Bolivianos. Na cidade está uma das melhores portas de entrada para o Parque Nacional Amboró, além do sítio arqueológico de ruínas incas: “El Fuerte de Samaipata”. Não visitamos nenhum dos dois lugares porque eram bem caros e nossos recursos estão ficando cada vez mais escassos.
Ficamos três dias em Samaipata por conta do tempo ruim, acampados atrás do chalé, já que o Jaime tinha voltado para Santa Cruz. Por lá chegamos a conhecer a cachoeira de Cuevas (muita areia e pouca água) e o mirante do hotel El Pueblito, com um visual muito bonito da cidade.
Vista noturna da cidade de Samaipata
Cachoeira de Cuevas
Castelinho em Samaipata
Saindo de Samaipata, mais subida e os Valles Cruceños apareciam cada vez mais lindos, com montanhas enormes cobertas de verde muito vivo. O melhor de subir é contemplar a vista de cima: de um lado o morro superado e do outro a descida que estar por vir. Dormimos em Mataral, que fica a cerca de 60km de Vallegrande, cidade onde Che foi executado pelo exército Boliviano. Na saída da cidade, uma senhora nos ofereceu uma penca de bananas, e nos disse: ”Fui muito bem recebida quando fui ao Brasil e espero que os Bolivianos também os receba muito bem, pois essa é a verdadeira revolução.” A estrada e as pessoas nos ensinam muito. Nesse clima seguimos pedalando por uma vegetação muito diferente, uma imensa floresta de cactus e árvores retorcidas, lembrando o cerrado. Chegamos em Comarapa e de agora pra frente é estrada de terra e pedras (chamada aqui de rípio) e pura subida.
Jardim de Cactus na região entre Mataral e Comarapa
No dia seguinte subimos de 1850m a 2600m até um povoado chamado Torrecillas, conversamos com o coordenador da escola e dormimos por lá. Essa noite foi a primeira vez que fez realmente frio. No dia seguinte quando estávamos saindo uma senhora nos parou e nos deu um saco de batatas, um bom sinal, já que o pessoal de Santa Cruz disse que não conseguiríamos nem um copo de água com os Collas.
Um fim de tarde inesquecível na escola em Torrecillas
A mudança não foi só no relevo e clima, mas principalmente nas pessoas e sua cultura. O povo do alto se veste de maneira muito peculiar, falam o idioma próprio Quechua e são bem descofiados. Quando chegamos nas pequenas vilas, nos sentimos como ET’s, mas rapidamente nos enturmamos. Tem sido uma experiência muito rica interagir com esse povo tão diferente para nós. Suas roupas coloridas, as condições em que vivem, seus custumes, tudo nos encanta.
Família Colla
Molhando a criançada
Fazendo feira
Seguimos pedalando em subidas e descidas gigantes, cada vez mais alto, até superarmos os 3000m. O visual dos vales e das montanhas andinas que começavam a aparecer no horizonte nos tirava o fôlego, mas não como a falta de ar da altitude. No caminho uma chuva leve nos pegou, ficamos assustados, pois com aquele frio não sabíamos se o equipamento iria dar conta, mas corremos para nos abrigar e deu tudo certo.
Ficamos apreensivos quando o tempo começou a fechar na altitude
Neste trecho passamos por La Siberia, um lugar famoso, que sempre está no meio das nuvens, com forte neblina e chuviscando. A subida até lá foi forte e quando já estávamos chegando no topo um carro parou e o motorista nos cumprimentou com um “Que tengan una feliz altura!”. Logo depois, já chegando no cume e com algumas nuvens passando por nós, um Condor aparece do meio das nuvens, voa sobre nossas cabeças e do mesmo jeito que veio, foi embora, como se viesse para nos dar boas vindas aos Andes.
Chegamos aos 3.000m de altitude e começamos a sentir falta de ar e frio. Pedalar nessas condições nos deixa ofegantes e estamos indo bem devagar para nos aclimatarmos.
Arrumar a bike nesse visual fica fácil!
No km 170, há 3060m, paramos em uma curva abandonada, pois parte dela tinha caído e a estrada neste trecho foi reconstruída. O lugar é maravilhoso, com uma mina de água próxima e uma vista das lindas montanhas andinas. Batizamos o lugar de “Mirante da Curva” e acabamos dormindo duas noites por lá, fazendo comida na fogueira, dando uma geral nas bicicletas e contemplando as montanhas e de noite um céu infinito de estrelas.
Na segunda noite, uma ventania nos tomou de surpresa no meio da madrugada. Fazia bastante frio e tivemos que sair no meio do vento para reforçar as barracas e recolher o que estava de fora, para que nada fosse carregado. Este acampamento foi inspirador para nós. O lugar era maravilhoso e estávamos totalmente isolados de tudo e todos, um lugar inesquecível da viagem.
Bom demais estar inserido na natureza!
Depois deste acampamento pegamos uma boa subida e depois descemos forte até chegar a Epizania, onde já começava novamente o asfalto. Lá conseguimos um espaço no posto de saúde local para dormir e o Kico aproveitou para se consultar com o médico, pois tinha pegado uma diarréia, que no dia seguinte acometeu o Caseh também.
Foge não, menino!
Quando acordamos em Epizania, o tempo estava muito feio e não estávamos animados de pedalar, então resolvemos tomar um ônibus para Cochabamba. A chuva molhava o vidro do ônibus, e quando ela se foi, nos sentimos mal de ver a estrada passar… e era só descida! Somos cicloturistas e a muito tempo nao entravamos em um ônibus, foi agoniante. Até que em um momento de lucidez o Caseh disse: “Vamos sair desse ônibus e pedalar!”. Os três concordaram na hora e fizemos o ônibus parar no meio do caminho, depois de andar uns 60Km.
Arrumamos as bicicletas e pegamos uma descida forte até chegar a Punata e o povoado chamado San Benito, onde conseguimos uma sala para dormir no Colégio Papa Juan, um colégio de freiras. Lá fizemos nosso primeiro plantio de mudas em terras estrangeiras. Junto com o professor de agropecuária e alguns alunos, plantamos 38 mudas de lingustos em um jardim. O colégio tem uma bela plantação com milho, maçã, hortaliças e até uma criação de porquinhos da índia (conhecidos por aqui como Cuy).
A interação com a garotada boliviana tem sido muito positiva. São as crianças os melhores professores de espanhol e é um sentimento muito bom mostrar para eles fotos da nossa viagem e ver seus olhos até brilhando de emoção.
Galera do Colégio Papa Juan
Gary nos ajudando no plantio
De San Benito foi só plano e descida até Cochabamba, onde chegamos direto para a casa da Nildes, onde ficamos alguns dias para conhecer a cidade. Nildes é uma amiga que fizemos por conta da Priscila, grande amiga que conhecemos em Pirenópolis-GO, já durante a viagem. É a rede de pessoas se crescendo cada vez mais.
Chegando em Cochabamba pegamos um trânsito infernal!
Sustentabilidade
Nesse caminho vimos muitas plantações nos vales, um manejo sustentável de hortaliças e principalmente morango. Ao lado de cada plantação tem um lago para represar a água da chuva. Impressionante como o povo do alto se adapta às condições adversas do meio-ambiente dessa região.
A grande maioria das contruções da região são de adobe, uma maneira barata e sustentável de se contruir. A técnica de contrução é milenar e os tijolos de terra, misturado com mato e cascalho são resistentes ao frio e ao tempo. Conhecemos no caminho algumas contruções com mais de 100 anos.
Na chegada em Cochabamba, uma das represas que abastece a cidade estava praticamente vazia, devido ao atraso nas chuvas deste ano. Qual será as causas dessa seca em pleno verão?
Vista do trânsito de uma rotatória em Santa Cruz de la Sierra
A Bolívia é dividida entre dois povos, os cambas e os collas. Os cambas são os mestiços, que habitam a parte baixa do país e os collas o povo mais indígena, dos grandes vales e dos Andes. E Santa Cruz de la Sierra é a capital Camba, um povo aberto, globalizado e bem humorado, que muito se assemelha ao brasileiro e, por isso, nosso tempo na cidade não podia ter sido melhor.
Bandeira do estado de Santa Cruz
A capital Cruceña foi nosso primeiro contato com uma cidade grande na Bolívia, com muita mistura de cultura. Pessoas vestidas de forma muito distintas, hábitos diferentes, todos misturados. A comida é bem exótica: Suco de balde, panza rebozada (uma espécie de buchada de bode), frango frito no meio da rua, muita sujeira e higiene nenhuma. As feiras livres estão espalhadas por toda cidade e o que nos salvou foi a grande variedade de frutas. Ficamos chocados, mas ao mesmo tempo intrigados com toda aquela diversidade.
Nos hospedamos no Alojamento Econômico, próximo ao antigo Terminal de Buses, conhecido como Ex Terminal. Chegamos neste alojamento pela Cláudia, que conhecemos pouco depois de chegar à Bolívia, em Ascención. Ela nos indicou o alojamento de sua prima Griselda. Ficamos sabendo depois que essa região é a mais perigosa da cidade, mas não vimos nada de anormal por lá.
Griselda nos ajudou muito por lá, com um super descontasso nas diárias, nos convidou para almoçar diversas vezes, foi nossa guia para onde quer que quiséssemos ir em Santa Cruz e ainda ganhamos uns refrigerantes e cervejas do bar La Cueva del Tejon, que fica logo abaixo do alojamento.
Picante de Pollo, almoço que ganhamos da Griselda
No primeiro dia de Santa Cruz fomos direto em uma feira que acontece toda quinta-feira, chamada de Feria de la Cumavi. Uma feira de roupas usadas que vem dos Estados Unidos e lá é possível encontrar muita coisa boa a um preço inacreditável. Tem roupa que custa menos de R$1!
Lá compramos algumas roupas de frio e camisas de tecido dry fit, tudo por menos de R$10 cada. O Caseh ainda comprou uma bota massa demais por R$15, pena que o sistema de impermeabilização dela não estava bom, mas tem sido um calçado útil na viagem.
Comemos basicamente Pollo Chinês, que é frango com macarrão e arroz. O triste era quando não achávamos um cabelo no prato, porque aí era certo que tínhamos comido ele.
Comida boliviana vendida na feira da Ramada em Santa Cruz
Nos chamou muita atenção uma bike adaptada com uma chapa de hamburguer, que a galera vende as hamburguesas no meio do trânsito. Num sinal o chapeiro freiou a bike rápido, soltou o guidão e deu aquela ajeitada nas carnes de hamburguer com a mão. Pegar a comida com a mão é normal por aqui também, eles te entregam a comida com a mão, te dao o troco e ainda limpam a mão na roupa, como se nada tivesse acontecido.
As estátuas e monumentos espalhados pela cidade nos contou um pouco da rica história boliviana.
Estátua em um cruzamento de Santa Cruz
Bicicleta em Santa Cruz
De bicicleta, disputando espaço no trânsito
O trânsito da cidade é muito ruim! Muitos carros, taxis e micros dividem espaço entre os anillos (a cidade é divida em anéis concêntricos) e os motoristas quase não usam seta, sinalizam tudo que vão fazer com buzinadas.
Apesar do terreno plano ser perfeito para andar de bike, a bagunça de automóveis e a disputa de espaço com os carros nas ruas faz com que andar de bicicleta por lá seja muito arriscado. Esse é um dos motivos de não se ver muita gente pedalando nas ruas.
Trânsito caótico de taxis e micros em um cruzamento da cidade
Conseguir peças de mountain bike em Santa Cruz foi uma grande aventura. Tiago precisava comprar uma sapatilha, pneu e algumas peças de reposição. Nas lojas indicadas, só tinha bicicletas de crianças e as do estilo barraforte. As peças são da China e de péssima qualidade, Shimano nunca ouviram falar. Compramos nessas lojas de “repuestos de bici” câmara de ar e pneu, mesmo assim um dos pneus que compramos explodiu na saída da cidade.
Um brasileiro que conhecemos, que anda de bicicleta, nos indicou a loja Monaco, onde encontramos peças boas e o Tiago conseguiu comprar sua sapatilha para substituir o trapo que ele vinha usando no pé. Apesar de ser usada, a sapatilha é Shimano e está em ótimo estado e custou 100Bs, cerca de R$30.
Foi um custo conseguir uma substituta para essa sapatilha do Tiago
Caseh aproveitou também para trocar o cubo traseiro da bicicleta, pois estava estourado e muito ruim para pedalar. Por sorte trazia um bom de reserva.
Bicicleteria Monaco
Calle Buena Vista (zona Mercado Mutalista al frente) Diagonal (Banco Económico Préstamos mi Socio, Nº2545)
Tel.: 348-0903
Cels.: 721-74452 / 736-56401
Santa Cruz de la Sierra – Bolívia
Pontos turísticos
Em Santa Cruz não ficamos muito por conta de turismo, mas conhecemos dois pontos importantes, a Plaza 24 de Septiembre e o Parque Urbano.
Catedral de Santa Cruz de la Sierra
A Plaza 24 de Septiembre é o lugar mais famoso da cidade, onde muita gente se reúne nas tardes e noites para ficar conversando e tomando um sorvete. Lá tem a bela Catedral Matriz, uma construção enorme e toda em tijolos. A sede do governo estadual também fica na praça, junto com teatros, museus, bons bares e sorveterias.
Garoto correndo atrás dos pombos na Plaza 24 de Septiembre
Fomos com as bicicletas na praça para vender algumas fotos e conhecemos bastante gente legal por lá. Encontramos alguns brasileiros que estavam de passagem pela cidade, mochilando pela Bolívia e também um casal de missionários da Igreja Batista, que o cara já rodou muito de moto pela América do Sul e nos deu uma ajuda.
Roletando no Parque Urbano de Santa Cruz
Roletamos de bike pelo Parque Urbano, um dos poucos redutos de área verde na cidade. A galera vai lá para relaxar, fazer picnic e praticar esportes, como caminhada e futebol.
Amigos Cruceños
No tempo que ficamos lá, ficamos muito amigos do pessoal do Alojamento Econômico, principalmente a Griselda, Moira e a criançada que mora lá, que nos atormentou todo o tempo. Era só sair do quarto e já chegava um deles e perguntava “Que esta haciendo, señor?”.
Essa galerinha do Alojamento Econômico deu trabalho!
Quando tiramos um dia para arrumar as bicicletas e lavar as barracas, foi quando o bicho pegou. Só precisava de um segundo de desantenção de nossa parte para cada um deles estar com alguma ferramenta ou peça de bicicleta na mão correndo de um lado para o outro. Não sei como não perdemos nada para estes pestinhas, que do mesmo jeito que nos atormentaram, fizeram a alegria dos momentos que estávamos no Alojamento.
Cláudia, a prima da Griselda, tinha também chegado na cidade e tiramos um dia para ir a sua casa fazer um almoço de arroz com feijão para não perder o costume. Lá conhecemos seu irmão Rodrigo, também gente boníssima e tenho certeza que deixamos a cidade com boas amizades nessa família.
Viramos uma curva na estrada de chão, e uma cancela de madeira com uma bandeira boliviana hastiada e alguns soldados de roupas verdes nos mostrou a primeira fronteira entre países de nossa viagem. Mostramos nossos documentos, respondemos algumas perguntas comuns sobre a viagem e começamos nossa etapa internacional.
Guarda boliviana de fronteira
As pessoas, o idioma, os costumes, as cidades, tudo é diferente. Esse primeiro trecho desde a fronteira até Santa Cruz de la Sierra nos mostrou uma parte da Bolívia primitiva, de natureza selvagem e gente humilde.
Um rango com o pessoal do Gefron foi nossa despedida do Brasil, e não foi um rango qualquer… foi um belo frango com pequi! Saímos do asfalto do lado brasileiro e após cruzar a fronteira só estrada de chão. Fomos até uma piscina de água natural indicada pelos policiais para fazer a digestão. A piscina fica na nascente de um rio e tem um marco que divide o Brasil da Bolívia. Depois de um banho e o primeiro contato com o povo nativo que estava lá, seguimos pela estrada de terra rumo a primeira cidade fora do Brasil, San Matias.
Vale a pena conhecer esta piscina na fronteira entre Brasil e Bolívia
Já na cidade fizemos o primeiro desenrolo em espanhol e chegamos na Migración para receber o primeiro carimbo nos nossos passaportes. Cambiamos nossos reais em moeda local. O câmbio em San Matias estava 3,6 Bolivianos para cada Real. Neste dia ficamos no Alojamento Cochabamba, onde negociamos o preço de 50Bs (R$14) para nós três.
Fomos na Migración para tirar o "permiso" de 90 dias na Bolívia
Lá começamos a ter contato com as pessoas hablando Castellano e a conhecer as cidades bolivianas. A falta de estrutura nos impressionou. Falta saneamento básico, muitas cidades sem luz e sem água e a higiene da galera é quase inexistente, principalmente nas cidades e vilas que ficam no trecho de estrada de terra.
Feira de frutas em San Matias
A comida típica da Bolívia é com uma sopa de entrada e um segundo prato. O mais comum é o tal do pollo con arroz y papas, que é frango na brasa ou frito, com arroz, macarrão e batata frita.
De San Matias começamos a jornada de 500km de estrada de chão. Passamos por Las Petas, Ascención e nos indicaram seguir para a vila de Tuná ao invés de fazer o caminho que tínhamos planejado, passando por San Bartolo e San Inácio.
Estrada de terra na fronteira com a Bolívia
Em Ascención conhecemos uma família maravilhosa. Dona Nancy, seu marido Hugo, sua filha Cláudia e a sobrinha Sílvia. Nancy nos contou uma triste história, de seu filho que há mais de 10 anos saiu para o Brasil e nunca mais teve notícias, nem sabe se está vivo ou morto. Quando foi se despedir de nós chorou por lembrar do filho e nos emocionamos com seu sentimento.
Caseh descansando na varanda em Ascención
Pedalamos todos esses dias com o sol batendo os 40º fácil e a estrada de chão estava em péssimas condições por conta das chuvas. Quando chegamos a Tuná, estávamos destruídos de cansaço e nossas bikes bem acabadas por conta da lama que pegamos nos empoçados e dos areiões do caminho. E o trecho não tinha nenhuma estrutura em caso de algum problema conosco ou com as bicicletas.
Resolvemos então passar o dia 7 de Janeiro em Tuná para comemorar o aniversário do Tiago e ver se conseguíamos uma carona até San José de Chiquitos, onde começava o asfalto.
A decisão de ficar um dia na vila foi a mais acertada. Ficamos acampados na varanda de um mercadinho muito simples e a família dona do local nos acolheu muito bem. Quando ficaram sabendo que era cumpleaño do Tiago, mataram dois patos e fizeram um almoço pra comemorar. Depois começou a diversão: jogamos bola com as crianças, e de tarde fomos com a gurizada na represa pra tomar banho e pescar… jacaré! Não conseguimos pegar nenhum, mas foi quaaaaase.
Roberto nos levou para conhecer a represa que abastece a província e o que encontramos foi uma represa praticamente vazia, dizendo ele que a seca esta muito intensa e estão precisando ir na cidade vizinha para buscar água. Essa é uma realidade de toda região.
No dia seguinte conseguimos carona com um caminhão que transportava madeira para Santa Cruz. Foi uma economia de 240Km de estrada de chão, até ele nos deixar em San Jose de Chiquitos. A carona com vista panorâmica nos mostrou que a vegetação na região é muito preservada, apesar do grande número de madeireias existentes na cidade de San Rafael. O problema foi que essa carona custou furos em dois alforges, um do Caseh e um do Kico.
De carona no caminhão madeireiro
Voltamos a pedalar no asfalto cerca de 280Km, com direito a 40Km de terra no meio do caminho entre Quimome e El Tinto. A estrada está em ótimas condições até chegar a Pailon. De lá até Santa Cruz acaba o acostamento e o asfalto está meio detonado.
Primeiros quilômetros de asfalto na Bolívia, depois de San José de Chiquitos
Acampamos nas vilas El Tinto e Tres Cruces. A primeira cidade com alguma estrutura foi Pailon. Lá ficamos na casa do Tonico, um cara que nos encontrou na estrada dois dias antes e nos disse para procurarmos ele por lá. O cara é tão fã do Brasil que, acreditem, colocou o nome do seu filho de Tonyko Tynoko.
Ele nos recebeu muito bem, nos deu um jantar e um cafezinho brasileiro. No dia seguinte sua esposa anunciou nossa presença em sua rádio e pediu para que as pessoas viessem nos ajudar com algum trocado. A rádio do cara são megafones instalados na antena da sua casa e um microfone em seu quarto, de onde ele passa informações de utilidade pública.
Galerinha boliviana em Pailón
Tonico e seu filho Tonyko Tynoko
Foi só ele anunciar e começaram a aparecer pessoas para nos ver, tirar fotos e nos dar una plata. Todo mundo que nos ajudou levou de recordação uma foto da viagem, que imprimimos para vender e auxiliar com os custos. E quando fomos partir de Pailon, uma mulher nos chamou em um ponto de mototaxi e disse que também iria nos ajudar. Pegou um boné e rodou entre os mototaxistas e cada um colocou sua colaboração.
Comendo uma sopa duvidosa
Mototaxistas de Pailón
Os trabalhadores por aqui mascam folha de coca o dia inteiro. Dizem tirar o sono e o apetite. Eles ficam acumulando uma bola em um lado da boca e cuspindo a saliva.
Trabalhador boleando folhas de coca
Partimos para chegar a Santa Cruz de la Sierra. Logo depois de Pailon, passamos por uma ponte enorme, bem ao lado do trilho do famoso Trem da Morte. Dia um pouco sem sorte para o pneu do Tiago que furou três vezes em menos de 5Km e acabamos atrasando a chegada. A surpresa veio em Cotoca, cidade que fica há 17Km de Santa Cruz.
Paramos para comprar uns pães de milho com queijo que estavam deliciosos e quando fomos seguir, uma mulher parou sua moto do nosso lado e perguntou: “Tão fazendo o quê com a bandeira do meu país?”. Ela se chama Marina e é uma baiana arretada que nos convidou para tomar um cafezinho em sua casa. Conversamos muito com ela e seu marido boliviano e eles nos convidaram para passar a noite acampados lá. De quebra ela nos preparou um maravilhoso jantar com arroz e feijão.
Marina, baiana arretada de Cotoca
No dia seguinte nos despedimos da família que nos fez sentir um pouco no Brasil e seguimos embaixo de uma chuva fina para chegar a Santa Cruz de la Sierra. Estamos hospedados em um alojamento muito simples, mas na bagatela de 40Bs (R$10) por dia.
Vamos ficar aqui alguns dias para conhecer um pouco da cidade e tentar vender umas fotos para levantar um capital. Daqui seguiremos rumo ao nosso próximo desafio que será enfrentar a altitude e o frio dos Andes.
É isso aí pessoal, pela primeira vez escrevemos de território internacional. A primeira fronteira entre países foi quebrada e estamos desde o dia 03 de Janeiro em território Boliviano.
Passamos por um trecho muito sem estrutura, onde as cidades e vilas não tinham saneamento, onde falta água e luz, quiçá internet. Foram 500Km de estrada de terra desde a fronteira com o Brasil até o asfalto e neste momento estamos em Pailon, a primeira cidade com alguma estrutura e com internet (movida a manivela) e ainda não tem como enviarmos fotos e vídeos.
Amanhã estaremos em Santa Cruz de la Sierra, cidade grande, onde ficaremos uns dias para colocar nossas coisas em dia e escrever aqui o que se passou nesses dias.
A Nova Origem consiste numa mudança de paradigmas, incorporando e difundindo o espírito sustentável e a conexão com a natureza. O projeto Nova Origem - Pedalando ao redor do mundo - surge como uma mudança no estilo de vida.
Cicloturismo na Bolívia, uma volta às origens
Bolívia, um país multi-cultural
A Bolívia é um país dividido entre dois povos: os collas e os cambas. O estado de Santa Cruz é o mais rico, de relevo plano e produtivo, onde estão as indústrias e a agropecuária. Essa região do país é a terra do dinheiro e dos cambas, que são os mestiços, decendentes de outros países. Os grandes vales e os andes é a terra dos Collas, povo nativo que vive sua cultura ancestral, misturados a sociedade contemporânea.
Ver todos os álbuns de fotos da Bolívia
Mulher manuseando as folhas de coca no estado de Santa Cruz
Santa Cruz se diz autônoma e quer ser idependente do restante do país. Ganhamos na capital do estado uma cartilha: “A Guerra separatista de Santa Cruz”, que conta um pouco da história dessa “guerra” que separa a Bolívia. Essa divisão causa um grande racismo e preconceito de ambas as partes, afetando as áreas política, econômica e social do país.
Santa Cruz – Os Camba
O povo camba é bem brasileiro. Galera descolada, escutam sertanejo, gostam muito de karaokê e aquelas máquinas de música que coloca moeda. Muito dos que conhecemos disseram já estar juntando grana para ir na copa no Brasil. As cidades já estão invadidas pelos fast food chinês de frango, o famoso Pollo con fideo y papas, que seria o frango com macarrão e batata frita. O povo camba nos recebeu muito bem e conquistamos alguns amigos que com certeza fizeram muita diferença em nossa passagem pela Bolívia.
Mercado em Santa Cruz de la Sierra
Ainda no estado de Santa Cruz encontramos os menonas, um povo com cara de Europeu, que os homens usam macacão e as mulheres vestido longo. Donos de terra e de grandes máquinas, foi um povo que nos chamou atenção. Andam de carroças ou uns tratores puxando uns trailler lotado dos menonas. Existem muitas versões sobre sua cultura, uns dizem que as mulheres tem que ter o máximo de filhos possíveis, outros dizem que andam de trator para os jovens não poderem ir muito longe. Escutamos uma história que tem uma senhora com 399 descendentes, é mole? Nos chamou atenção o dia em que uma família passava de carroça na beira da rodovia e um garotinho descia da carroça em movimento, pegava um lixo no chão e corria novamente para a carroça, parecia ser a diversão dele. O fato é que aquela gente loira de pele branca e olhos claros, no meio dos bolivianos é um contraste muito grande.
Menonas
Menona na carroça
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Andes – Os Collas (indígenas)
Mulher no alto dos andes
O restante do país é na altitude, nos grandes vales e nos andes. O povo nativo ainda vive de forma primitiva, as mulheres em geral usam duas tranças e uma saia nos joelhos, sempre com pano muito colorido nas costas. São elas que carregam o peso, fazem uma trouxa com esses panos coloridos e carregam de tudo ali: bêbe, lenha e até balaios. Os homens usam calça social e camisa de botão. Eles normalmente trabalham na roça plantando, como motoristas de van e ônibus ou fazendo manutenção nas estradas. A cultura muda muito em poucas distâncias. Em alguns lugares dos andes os homens usam coletes e tocas muito coloridas e contrasta com o ambiente seco, frio e sem vida da altitude, que por onde passamos chega a 4.500 metros.
Galera de toca colorida
Culinária
A comida é muito diferente, eles comem até cabeça de porco, cozida dentro da de boi, gelatina de pata de cavalo e por aí vai. Aproveita-se de tudo!
Picante de Pollo
Um almoço tradicional aqui é uma sopa de entrada, chamado de primeiro e um segundo prato, que é arroz, batata e alguma carne: chuleta, frango e cordeiro são os mais comuns. O povo aqui também gosta de uma pimenta, mas só de uma espécie, a Ají (arrí). Em todo restaurante tem um molho dessa pimenta sobre a mesa.
A higiene da galera também não é nada boa e comer em restaurantes bolivianos pela estrada é sempre uma situação de risco. Os bolivianos não são muito bons para preparar carne de boi, então estamos preferindo comer frango e cordeiro, que sempre é melhor por aqui.
Os nativos dos Andes vivem em condições extremas. Muitas vezes não conseguimos comprar nem um biscoito e quando se vê o local e as condições que vivem esse povo, conseguimos entender porque eles aproveitam tudo: precisam sobreviver.
Já comemos bastante coisa esquisita nessa temporada na Bolívia. Suco de balde, sopa de “bago”, linguiça que mais parecia um bolo de farinha e carne… Nessa brincadeira nós três já pegamos diarréia brava no país. Brincamos que a diarréia é quase um ponto turístico da Bolívia.
Artesanato
Artesã no centro de artesanato de Japo
No alto dos andes que vimos os primeiros artesãos bolivianos, que fazem tecidos, cachecol, tocas e trabalham com lã de llama, alpaca e ovelha. As mulheres enquanto pastoram os animais, ficam com um bolo de lã em uma mão e um carretel em outra, fazendo os fios. O trabalho é todo artesanal, com uma bonita combinação de muitas cores.
Costumes e crenças
“Como fazem com mulheres? Estão a 10 meses sem?” Essa foi a pergunda de um camponês em Pojo, a 4.200m de altitude. Para eles não é normal trocar de mulher. Depois que se casa, não se separa de forma alguma. Mulheres que são deixadas pelo marido, são excluídas e dificilmente conseguem outro marido. Esse mesmo camponês nos contou de um costume onde tanto os homens, quanto as mulheres fazem encontros, tomam álcool e brigam, caem no tapa mesmo, só não sabemos valendo o que.
Igreja Católica no centro de Santa Cruz de la Sierra
A religião é cristã, mas algumas pessoas ainda crêem na Deusa Inca da Terra “Pachamama”.
As crianças cantam o hino nacional todos os dias antes das classes, e nesse momento são tratadas como “soldaditos”.
Ficamos sabendo de algumas coisas bizarras, que nao sabemos se são verídicas. Dizem que antes de fazer qualquer construção, para que a casa seja protegida, alguma vida tem que ser sacrificada. Falaram até que em alguns casos enterravam as pessoas vivas na fundação das casas.
Língua
A Bolívia tem mais de 32 dialetos, sendo 4 as línguas mais importantes: Castellano, Quechua, Aymara e Guarani. No alto dos andes se fala muito Quechua e Aymara, e alguns antigos pouco falam castellano. Na escola estudam lingua 1 e 2. Em algumas regiões o Quechua é mais forte e em outras o Aymara, mas todos falam pelo menos uma das duas.
Sustentabilidade
Senhora colhendo batatas
Os campesinos, que são a maioria no país, plantam geralmente o básico para sobrevivência, batata, cenoura e hortaliças em geral. Os animais, gado, cordeiros e llamas são pastorados por crianças e adultos nas beiras das rodovias, ou ficam soltos nos morros de peder de vista. As condições são muito difíceis, além da altitude e do frio, o terreno é muito acentuado e para camponeses chegarem em suas plantações ou juntarem sua criação têm que andar muito pelas grandes montanhas andinas.
O povo do alto economiza muita água e em alguns pontos da serra brota água. É muito comum ver poços de armazenamento de água da chuva, que ficam espalhados pelas plantações nos grandes vales.
Nos chamou atenção que eles lavam copos, pratos e talheres em 2 baldes com água. Uma solução sustentável, mas que muitas vezes se torna “porca”, porque alguns não trocam aquela água o dia todo, aí também não resolve. Alguns brasileiros nos disseram: “Eles reclamam que gastamos muita água! Lógico, tomamos banho, lavamos roupa, lavamos louça…”. Tomara que encontremos o caminho do meio.
Feira em Paillon
No país todo o que mais tem são os mercado popular e feiras de rua. É possível encontrar abacate, ameixa, banana, pêssego, maçã, tomate, pimentão, cenoura, beterraba e o que achamos muito interessante é que o granel é permitido. Compramos macarrão, arroz, feijão, tudo a granel e passamos a fazer nossa comida, para evitar as caganeiras. As feiras no interior do Andes é semanal, e se não fizer sua provisão direitinho, vai passar aperto. Isso aconteceu conosco, perdemos a feira e passamos um perrengue pra poder conseguir mantimentos para fazer nosso rango.
Chegando em Oruro
O lixo dos produtos industrializados estão espalhados pelas rodovias e cidades da Bolívia. No interior, quando não são queimados, as garrafas Pet, sacolas e latas de alumínio, principalmente, estão espalhados pelas ruas, estradas e rios. Tem quem leve esse lixo para os lugares mais remotos, mas não tem quem o colete, pois as embalagens vazias não tem valor.
Não existe saneamento básico pelo interior do país, esgotos escorrem no meio das ruas. Os banheiros secos são buracos no chão que depois são tampados. É triste ver o povo caminhando e as crianças brincando em meio ao barro de merda como se nada tivesse acontecendo.
Pelo interior do país, quem tem casa de alvenaria é diferenciado. As construções em Adobe são as mais comuns. O adobe é bem grande, feito de uma mistura de barro, cascalho e mato, parece ser um ótimo isolante térmico para o frio da região.
Pedalando pelo pantanal Boliviano
Nos chamou muita atenção no estado de Santa Cruz é que muitas regiões estão com sua mata nativa preservada. Eles criam gados e plantam no meio dessa mata, garantindo a preservação da natureza. O bioma parece ser um cerrado misturado com o pantanal.
No alto dos Andes não se vê sequer uma árvore devido ao clima extremo, à altitude, frio e vento intenso. O verde que existe é das plantações nos vales ou em cercados de pedras. A mata nativa das montanhas são arbustivas, cactus e um capim amarelado, que no inverno somem por debaixo da neve.
A seca vem castigando todo o país, vimos várias lagoas secas e poucas chuvas.
Governança
O presidente Evo Moralles é colla e odiado pelos camba e seu povo também não está muito feliz com o que o presidente vem fazendo. Chegando na fronteira ficamos sabendo um aumento de 85% no preço dos combustíveis. O povo parou o país em um movimento que foi chamado de “gasolinaço” e Evo voltou atrás. Vieram agora 2 aumentos seguidos, dessa vez no preço do açúcar.
Em Oruro presenciamos o “paro nacional”, que parou o país inteiro. Os trabalhadores foram para as ruas pedir um salário digno. Uma marcha de mineiros e outras classes de trabalhadores percorreu as ruas de Oruro soltando dinamites e gritando mensagens em prol da classe e contra o governo nacional. Nessa passeata vimos as mais diversas caras do trabalhador Boliviano, uma experiência muito rica.
Bolivia Brasileira
Outra coisa que tem muito na Bolívia também é brasileiro. A grande maioria faz faculdade de medicina, que por aqui custa em média 150 dólares mensais e com um pouco mais que isso, se aluga um bom apartamento também. Em Santa Cruz e Cochabamba é gente falando português pra tudo que é lado, se encontrando nos restaurantes de comida brasileira. As noitadas de funk e samba fazem a alegria dos estudantes.
Músicas brasileiras em português ou traduzidas são muito comuns em toda a Bolívia, principalmente o sertanejo. O governo brasileiro investe muito por aqui também, além de estradas financiadas pelo nosso país, parte da obra do Cristo de la Concordia, uma espécie de Cristo Redentor de Cochabamba, foi um presente da Petrobrás para a Bolívia.
Visão do Brasil
Quando passamos de bike com nossas bandeiras gritam: “Du Brasilll” ou “Brasilll, país mais grande do mundo!”. Eles conhecem os clubes de futebol, jogadores e as mulheres com pouca roupa. Todos falam também do ex-presidente Lula, gostam muito dele. Praticamente só conhecem a cidade de São Paulo e alguns tem o sonho de ir pra lá trabalhar.