Arqvs. por Categoria: Diário de Bordo

Cordilheira Branca, Cânion do Pato e Costa Norte – Peru

Cordilheira Branca, Cânion do Pato e Costa Norte – Peru
Pedalando aos 4850m de altitude - Parque Nacional Huascarán, Peru

Pedalando aos 4850m de altitude - Parque Nacional Huascarán, Peru

Foi no Parque Nacional Huascarán que alcançamos a altitude máxima da viagem até agora, 4.850 m. Pedalamos por uma estrada de chão entre os nevados e nenhum ser humano. O frio era intenso, e nossa comida estava escassa, pois estavamos a mais de um dia sem passar por um povoado, e nossa reserva de comida foi insuficiente. A adrenalina que sentimos é diferente, ficamos exitados com a paisagens, juntando força para subir as montanhas que se mostram a nossa frente. A cabeça ja doía devido a fome quando chegamos no Pastoruri, uma montanha famosa da região. De lá começou uma decida forte, e quando alcançamos os 4200m, achamos um lugar abrigado do vento, perto de um rio e de um bosque de Puya Raymondi, uma planta com uma das maiores inflorações do mundo. Fizemos uma fogueira e cozinhamos um macarrão, que enfim matou a nossa fome.

Jardim de Puya Raymondi - Parque Nacional Huascarán - Cordillera Blanca, Peru

Jardim de Puya Raymondi - Parque Nacional Huascarán - Cordillera Blanca, Peru

Parque Nacional Huascarán - Cordillera Blanca, Peru

Parque Nacional Huascarán - Cordillera Blanca, Peru

No dia seguinte pedalamos um pequeno trecho de estrada de chão, e logo estávamos no asfalto novamente, descendo para a cidade de Huaraz. No caminho encontramos um casal de cicloturistas ingleses, que estavam conhecendo a região. Eles usavam roupas bem engraçadas e batemos um papo bem divertido.

Huaraz é a capital do estado de Ancash, e é onde esta toda a estrutura para os turistas do mundo inteiro que vão para la explorar a região, uma das mais famosas de montanhismo. A cidade é pequena, mas muito agradável e fica no meio de enormes nevados.

A caminho de Huaraz - Cordillera Blanca, Peru

A caminho de Huaraz - Cordillera Blanca, Peru

No hostal que ficarmos conhecemos Alexandre Manzan, que já foi campeão mundial de Triathlon, e é gente finíssima. Trocamos muitas idéias sobre o mundo, a energia foi boa demais! As pessoas que cruzam nossos caminhos nos da a certeza que estamos na direção correta.

Alexandre Manzan, grande atleta brasileiro de X-Terra

Alexandre Manzan, grande atleta brasileiro de X-Terra

Na primeira tentativa de saída de Huaraz, um dos Alforges do Caseh caiu da bike e um caminhão passou e o roubou. Ele ainda pegou um taxi e tentou encontrar o caminhão, mas foi em vão. No alforges estavam sua equipagem de frio e chuva, saco de dormir. Voltamos para a cidade e ele comprou os equipamentos usados, a um preço bem barato. O prejuízo foi reduzido com a ajuda dos amigos, que participaram da Vaquinha feita pela net e doaram a grana que foi gasta no Equipamento.

Manoela Zaninetti, André, Eduardo, Andre Saliba, Crystiam Kelle, Jah Rastafarii, Renata Tibiriçá, Mari Zanon, Areta do Bem, Edvaldo Rodrigues, Gustavo Almeida, Rafael Vale, Daniel Fazza e Carol Fazza. Muito obrigado a todos que colaboraram!

Fizemos uma gambiarra e colocamos uma mochila para substituir o alforge perdido. Ficou meio desbalanceado o sistema, mas pelo menos pudemos voltar para a estrada.

Seguindo jornada, partimos de Huaraz em uma baixada enorme em direção ao Cânion do Pato. No meio do caminho o cabo da marcha do Tiago arrebentou, então tivemos que parar em Yungay para trocá-lo. Já estava tarde e acabamos ficando por lá para dormir. Acampamos na cidade sepultada, que se chama Campo Santo, em um viveiro de mudas. A antiga cidade de Yungay foi soterrada por uma avalanche de neve e lama que desceu do Huascarán (maior montanha do Peru com 6750m) em maio de 1970 matando mais de 25mil habitantes.

Nosso acampamento no Campo Santo - Yungay, Peru

Nosso acampamento no Campo Santo - Yungay, Peru

Aproveitamos a oportunidade de estar em um viveiro de mudas, no interior de uma cordilheira no Peru, e ficamos uma semana fazendo um trabalho voluntário por lá ajudando na manutenção dos viveiros e mudas. Passavamos o dia conversando com os funcionários, num ambiente de muita paz e tranquilidade. O sistema de irrigação dos viveiro é por canaletas usando o desnível do terreno e a gravidade, bem diferente do que estamos acostumados.

Trabalhando no viveiro de mudas do Campo Santo - Yungay, Peru

Trabalhando no viveiro de mudas do Campo Santo

Arrumando as mudas - Campo Santo, Yungay, Peru

Arrumando as mudas - Campo Santo, Yungay, Peru

Aproveitamos a oportunidade e fomos conhecer a famosa Laguna 69 e as lagoas de Llanganuco. De Yungay até o início da trilha são 30km de subida. Colocamos nossas bikes em um taxi que nos levou até o início da trilha, trancamos as bikes numa árvore e de lá tivemos que caminhar por cerca de duas horas para chegar na lagoa. O caminho é lindo, no meio de grandes cânions e uma vegetação diferente, com flores lilás e cada vez mais perto dos nevados.

Laguna 69 - Cordillera Blanca, Peru

Laguna 69 - Cordillera Blanca, Peru

Trekking para a Laguna 69 - Cordillera Blanca, Peru

Trekking para a Laguna 69 - Cordillera Blanca, Peru

A Lagoa 69 fica há 4690m acima do nível do mar, cercada de nevados e com um azul turquesa nunca visto antes. Kico arriscou um mergulho assim que chegou, mas não suportou o gelo da água. Voltamos de bike, num downhill alucinante, passando pelas lagoas de Llanganuco (Conococha e Chinancocha), que ficam meio a um cânion de nevados.

De bike por Llanganuco - Cordillera Blanca, Peru

De bike por Llanganuco - Cordillera Blanca, Peru

Esse paraíso está ameaçado de desaparecer, pois devido ao aquecimento global, algumas lagoas não podem ser mais acessadas, pois o nível de água delas está muito alto. Algumas pessoas que conversamos nos disseram que a neve do Huascaran está diminuido e eles tem medo de um dia ela acabar e a região se transformar em um grande deserto.

Fizemos boas amizades em Yungay, principalmente com a família Paz, com quem convivemos esses dias. Despedimos dos amigos e seguimos pedalada em direção ao litoral. Pedalamos por algum tempo pelo cânion formado pela Cordilleira Negra e Cordillera Blanca. Um dos fatores da existência da Cordillera Blanca é que a Cordillera Negra corta o vento vindo do Pacífico e permite o acúmulo da neve.

Despedida da família Paz em Yungay, Peru

Despedida da família Paz em Yungay, Peru

O asfalto acabou e começamos a pedalar por uma estrada de terra muito ruim. Logo chegamos ao Cañon del Pato, um trecho de estrada com mais de 50 túneis em uma estreita fenda no meio de montanhas gigantes.

Túneis consecutivos no Cañon del Pato - Peru

Túneis consecutivos no Cañon del Pato - Peru

Atravessando mais um túnel - Cañon del Pato, Peru

Atravessando mais um túnel - Cañon del Pato, Peru

Vencido o Cañon, mas não a estrada horrível, o bagageiro do Tiago não aguentou o tranco e quebrou. Estávamos no meio de um deserto, numa estrada que passava pouquíssimos carros. Kico e Caseh dividiram parte da bagagem do Tiago entre si para tentar chegar na cidade mais próxima e pegar um ônibus ou uma carona. Chegamos no povoado Mirador, que mais parecia uma cidade deserta, cheio de casas abandonadas, com apenas uma casa aberta. Uma senhora mantém ali um pequeno mercado. Disse que as pessoas abandonaram a regiao, pois perderam tudo numa cheia do Rio, e desanimaram de viver ali. Ela é professora aposentada e foi criada ali. Nos contou muitas histórias da região e nos mostrou as formas que consegue ver nas montanhas, foi bem divertido. Nessa noite, nos permitiu dormir em uma das casas da cidade que ela tinha a chave.

Na manhã seguinte conseguimos uma carona até Trujillo, o problema é que era um caminhão de carvão mineral. Chegamos pretos e exaustos depois de quase 8 horas na caçamba do caminhão sobre toneladas de carvão.

De carona em um caminhão de carvão

De carona em um caminhão de carvão

De carona em um caminhão de carvão

De carona em um caminhão de carvão

Em Trujillo tem uma das mais famosas Casas de Ciclistas da América do Sul e fomos direto para lá. Quando chegamos na casa de ciclista, negros, a galera se divertiu com a nossa cara. Passamos apenas uma noite por lá, mas foi muito inspirador. Ficamos sabendo da história de um alemão que está viajando há mais de 45 anos de bicicleta. Encontramos também com uma francesa de 63 anos que está viajando de bike sozinha pela América do Sul. Conhecemos Lucho, o dono da casa, e ele nos contou sobre a passagem do saudoso Valdo, cicloturista brasileiro de 66 anos que estava dando a volta ao mundo e morreu no México, um grande inspirador para o que estamos fazendo.

Com a galera da Casa de Ciclistas de Trujillo - Peru

Com a galera da Casa de Ciclistas de Trujillo - Peru

Em Trujillo Tiago soldou o bagageiro, mas como é alumínio, não ficou 100%, mas pelo menos nos permitiu seguir. Dali pegamos um ônibus para Máncora onde passamos uns dias muito bacanas e com muito boas companhias.

Em Máncora ficamos hospedados no Camping do Tito e conhecemos uma galera viajeira muito massa e isso inclui a brasileira Rita que tava viajando de bike com um grupo de argentinos. Máncora é uma cidade de noite agitada, mas nós nem caímos na noitada por lá, ficamos mais curtindo uma praia depois da temporada dura na Cordillera Blanca, foi como férias.

O caminho da praia em Máncora - Peru

O caminho da praia em Máncora - Peru

Galera multinacional no Camping do Tito - Máncora, Peru

Galera multinacional no Camping do Tito - Máncora, Peru

Algum parente do Bob Sponja - Máncora, Peru

Algum parente do Bob Sponja - Máncora, Peru

Quando saímos de Máncora, pedalando pela parte mais bonita do litoral peruano, paramos uns dias em Zorritos, no camping 3 Puntas Casagrillo e lá ficamos uns dias fazendo dois trabalhos web, um deles o site do próprio hotel onde estávamos.

Neste tempo, cerca de 20 dias, em Zorritos, conhecemos duas famílias argentinas viajando de Motor Home com seus filhos pequenos. Uma grande experiência de vida para estas crianças. Presenciamos também um efeito natural incrível. Durante a noite, algas marinhas (fitoplânctons) iluminavam as ondas de azul neon, colorindo o mar com explosões de luz, realmente incrível.

Família Salemme que conhecemos em Zorritos - Peru

Família Salemme que conhecemos em Zorritos - Peru

Viringo, raça de cachorros sem pêlo do Peru

Viringo, raça de cachorros sem pêlo do Peru

Daí seguimos para as últimas pedaladas em terras peruanas, rumo ao Equador. Nos despedimos de um país que nos brindou com muita cultura, pessoas simples e paisagens deslumbrantes.

Confira nossos outros posts da nossa passagem pelo Peru:

Primeiras aventuras no Peru – Cusco, Machu Picchu e Vale Sagrado

Linhas de Nazca, Paracas e Chincha Alta

Cicloturismo na Cordillera Blanca – subindo aos 4.850m de altitude

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Cicloturismo na Cordillera Blanca – subindo aos 4.850m de altitude

Cicloturismo na Cordillera Blanca – subindo aos 4.850m de altitude

Nosso destino ainda não estava certo, queríamos conhecer a cordilheira Branca, principalmente depois de ver as fotos da viagem do Antônio Olinto e da Rafa, mas teríamos que chegar a 4.850m de altitude e sair da zona de conforto que o litoral vinha nos propiciando. Saímos de Lima e seguimos pela Panamericana, rumo a Trujillo, por um caminho de deserto com as paisagens bem parecidas, mesclando o deserto com o mar e um céu nublado.

Pedalando pelo litoral peruano

Pedalando pelo litoral peruano

A decisão de ir para Cordilheira Branca veio no trevo para Huaraz. Caseh parou e falou que tava pilhado de subir, e depois de uma troca de idéias decidimos subir pedalando para os andes. A Cordilheira fica no estado de Ancash, e lá que esta o Huascarán, a maior montanha do Peru. Essa região é visitadas por amantes do montanhismo do mundo inteiro.

Vale verde no início da subida

Vale verde no início da subida

Alguns kilometros percorridos e a paisagem começou a mudar, o sol saiu e o verde apareceu em um vale com muitas frutas e verde. Pela estrada fomos fazendo a feira: maracujá, manga, maçã, tudo do pé. No final da tarde paramos numa cidadezinha e nos ofereceram o campo de futebol para dormir. Acabou que o povo chamou a gente para bater uma pelada, e lógico aceitamos.

Acampamento no campo de futebol

Acampamento no campo de futebol

Tiago interagindo

Tiago interagindo

Acordamos bem detonados por causa do futebol, mas sem muita escolha, seguimos pedalando pelo vale. Nas subidas a velocidade média é entre 6 e 7 km, temos que ter paciência para chegar no objetivo. Nesse dia pedalamos mais do que gostaríamos. Final da tarde já estávamos cansados, mas na montanha era penhasco pra tudo que é lado, não tínhamos onde armar nossas barracas e tivemos que seguir até a próxima cidade. Chegando la uma senhora nos indicou a quadra de futebol para dormirmos.

Montanhas por todos os lados

Montanhas por todos os lados

Senhora que nos conseguiu água

Senhora que nos conseguiu água

Parada pro rango e alongamento

Parada pro rango e alongamento

Seguimos nossas pedaladas, e uma das coisas que mais nos impressionou é como que em um trecho tão pequeno, as coisas mudam tanto. O povo, o clima, vegetação, tudo muda drasticamente em uma distância muito pequena. Nos andes é tudo muito diferente, cada cidadezinha é uma cultura diferente, são todos fechados, puros e ao mesmo tempo muito gentis. Por aquí chove somente de dezembro a março, e no restante do ano a água vem do desgelo, que é distribuída para as comunidades por canaletas na beira da estrada. Chegamos a 3.400m de altitude e dormirmos denovo numa quadra de futebol. Dessa vez um grupo dumas 10 crianças nos fizeram companhia até a hora de dormir.

Canaletas de água na beira da estrada

Canaletas de água na beira da estrada

Crianças curiosas

Crianças curiosas

Um Jumento chorou a noite toda, e nós acordamos antes do sol aparecer. Fizemos nosso café com leite e partimos por uma subida forte, cheia de zigue-zague até as primeiras montanhas nevadas. A alguns dias atrás estávamos no mar e bater os 4.300 metros alguns dias depois da uma sensação de superação indescritível.

Primeiras montanhas nevadas

Primeiras montanhas nevadas

CUIDADO. Zona de gran altura

CUIDADO. Zona de gran altura

Família campesina

Família campesina

Armamos nosso acampamento no alto de uma montanha, com uma vista linda para uma cordilheira nevada. Era lua cheia, fizemos uma fogueira e essa noite em especial conversamos muito sobre nossas famílias, saudades!

Vista magnífica da Cordillera Blanca

Vista magnífica da Cordillera Blanca

Acordamos com nossas barracas cheia de gelo. Tiramos foto e ficamos todo orgulhosos da nossa aventura. O rolé ja começou com uma descida forte, que apesar de muito bonita, nos fez voltar aos 3.400m. Paramos para almoçar em uma cidadezinha e nos disseram que até Parque Nacional Huscarán não encontraríamos mais povoado para comprar comida. Fizemos a compra para dois dias de rolé e partimos. O caminho é no meio de umas montanhas cinza com os cumes nevados. Pedalar no meio das montanhas nevadas é sempre um luxo! Fizemos outro acampamento com um visual surreal! É bom demais a sensação de que precisamos de pouco para ser feliz…

Essa madrugada batemos o récorde da temperatura mínima da viagem: -7C. A manhã tava gelada, o sol não aparecia, a mão congelava e tava difícil de arrumar as coisas para seguir. Nessa hora que valorizamos o calor do sol e sentimos o quão importante ele é.

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Linhas de Nazca, Paracas e Chincha Alta – Peru

Linhas de Nazca, Paracas e Chincha Alta – Peru

Viajamos de Cusco até Nazca de ônibus, para pedalar no deserto de Nazca, região cheia de cultura ancestral e conhecer a Reserva Nacional de Paracas, paraíso de vida marinha, onde o deserto encontra o mar azul.

Cerca de 12 horas dentro do ônibus nos deixou mais cansados do que se tivéssemos pedalado este caminho. Vimos uma belíssima paisagem andina indo embora na velocidade do busão.

Uma das descidas mais alucinantes da viagem em direção ao deserto de Nazca

Uma das descidas mais alucinantes da viagem em direção ao deserto de Nazca

Baixamos à noite em um povoado chamado Pampatambo, de onde teríamos 50Km de pura descida até Nazca. Acampamos por lá e começamos a descida na manhã seguinte, e foi uma das mais tops da viagem! A estrada era cheia de curvas que ia serpenteando o morro em direção a uma planície desértica, nos mostrando uma paisagem árida, sem vida e cheia de cores, um visual inesquecível.

Encarando o deserto em um dos mirantes da estrada

Encarando o deserto em um dos mirantes da estrada

Fizemos os 50Km até Nazca em tempo recorde, então mudamos nossos planos de pernoitar por lá e resolvemos seguir até onde ficam as famosas Linhas de Nazca. Não teríamos dindin para fazer o sobrevôo, então o negócio era procurar umas montanhas e mirantes para ver alguma coisa dessas linhas curiosas e ancestrais. Pedalavamos pela estrada tentando ver por onde os aviões faziam volta, para tentar ver alguma coisa, estávamos em um lugar muito especial!

Liberdade total

Liberdade total

Linhas de Nazca

Invadimos as Linhas de Nazca!

Invadimos as Linhas de Nazca!

As Linhas de Nazca são desenhos de formas geométricas, humanas e formas naturais como animais e árvores, que supostamente foram feitos pelo povo Nazca, mais de mil anos atrás. Estão preservadas até hoje simplesmente porque lá não chove. São 2h de água por ano nesse lugar e mesmo assim é só uma neblina.

Uma alemã, Maria Reich, se apaixonou pelo lugar e pelas linhas e dedicou sua vida a catalogar e preservar as Linhas. Com o tempo conseguiu apoio do governo e hoje tem um museu bem bacana onde era sua casa, no povoado de San Pablo. Visitamos o museu e ficamos impressionados com a paranoia que a Maria Reich entrou com o lugar. Várias fotos dela já bem velha no meio do deserto, medindo e limpando as linhas. No museu além de contar a história das linhas e da Maria Reich, conta também com amostras de artesanato, cerâmica e uma múmia, todos da civilização Nazca.

Entendendo um pouco mais sobre as Linhas de Nazca no Museu Maria Reiche

Entendendo um pouco mais sobre as Linhas de Nazca no Museu Maria Reiche

Múmia da civilização Nazca

Múmia da civilização Nazca

Na estrada conseguimos visualizar algumas das Linhas em dois mirantes, uma montanha e uma torre de 12m. Da montanha se vê linhas que vão ao infinito e formas geométricas e da torre já consguimos ver duas formas: A Árvore e A Mão. Sinceramente a nossa sensação é de que imaginávamos que os desenhos eram maiores. Mas não deixa de ser curioso a perfeição de como esse povo fazia essa arte.

A Árvore - uma das figuras de Nazca vista do mirante

A Árvore - uma das figuras de Nazca vista do mirante

Foi partindo daí em direção a Ica, onde fizemos um dos acampamentos mais diferentes até hoje. Em um trecho de 50Km de estrada não existe nada a não ser deserto arenoso e amarelo para os dois lados. Nenhum sinal de vida, nenhuma casa. Nos abastecemos de rango e água e, no meio do nada, decidimos parar de pedalar e acampar ali mesmo, afastados uns 100m da beira da Panamericana, que era o único sinal de civilização por ali.

Acampamos no meio do deserto em uma paisagem inóspita e inspiradora

Acampamos no meio do deserto em uma paisagem inóspita e inspiradora

Areia, sol forte e um pôr-do-sol incrível nos mostrou um ambiente que nunca tínhamos tido contato. Nenhum bicho, inseto, árvore, nada. Totalmente inóspito e silencioso.

Dali seguimos para uma noite em Huacachina, um oasis natural no meio do deserto, pertinho da cidade de Ica. O lugar virou um ponto turístico e lá é cheio de restaurantes, hostals e agências de turismo que levam a galera para fazer sandboard nas dunas. Lá ficamos na casa do El Chamo, um venezuelano que é guia local e em sua casa, malucos de toda América do Sul. Galera muito massa!

Galera maneiríssima na casa dos malucos em Huacachina

Galera maneiríssima na casa dos malucos em Huacachina

Paracas

Paracas, paraíso de vida marinha no encontro do deserto com o mar azul

Paracas, paraíso de vida marinha no encontro do deserto com o mar azul

A próxima meta era chegar no Oceano Pacífico, outra coisa que seria totalmente novidade para nós. Pedalando pelo deserto, fomos nos aproximando de Paracas enfrentando um vento contra bem forte, de frente pra um pôr-do-sol surreal. Chegamos na cidade já estava anoitecendo e acampamos na varanda de uma casa na primeira noite.

Gaivota em Paracas

Gaivota em Paracas

Porto da cidade de Paracas

Porto da cidade de Paracas

No dia seguinte resolvemos ir até a Reserva Nacional de Paracas, onde ficam as maiores belezas do local e acampar lá uma noite. Trocando idéia com os locais, nos indicaram ir até a praia de Lagunillas e acampar por lá e isso fizemos.

Chegando em Lagunillas, na Reserva Nacional de Paracas

Chegando em Lagunillas, na Reserva Nacional de Paracas

Entrando na RNP (paga-se 5 soles por cabeça), já paramos direto para ver fósseis de molusco de 45 milhões de anos encrustrados no chão e também um montão de Flamingos e outras aves guaneiras. Quando todos levantaram vôo foi um espetáculo da natureza.

Turritelas, fósseis marinhos de 45 milhões de anos

Turritelas, fósseis marinhos de 45 milhões de anos

Montañas coloradas

Montañas coloradas

Em Lagunillas pegamos as bikes e fomos conhecer a Praia da Mina e dar uma volta no mirante dos Lobos Marinhos. Acostumados com as praias cercadas de verde no Brasil, nos deparamos com um deserto colorido se encontrando com o mar perfeitamente azul e falésias gigantes, paredões que passam dos 100m de altura de encontro ao mar.

Onda dando um show no mar de Paracas

Onda dando um show no mar de Paracas

Durante todo o passeio, ficamos contemplando esse visual que enche os olhos e a vida animal local que é bem preservada. Presenciamos o nado de um Lobo Marinho e muitas aves mesmo.

Belíssimas aves de Paracas

Belíssimas aves de Paracas

Apesar de ter muita vida no local, um pescador nos disse que antes se pegava peixes grandes na borda da praia e hoje o tamanho não passa de um palmo. Outro pescador, que trabalha para uma companhia de peixes gigante, nos disse que cada vez que o barco vai ao mar traz 500 toneladas de peixe, usam GPS e Radar para localizar os cardumes. E detalhe que depois de toda essa exploração, tudo vai para o Japão. Uma covardia com a comunidade local.

Já na saída de Paracas, toda a beleza da reserva se transforma em um litoral feio, pobre e com cidades bem desorganizadas, como Ica e Pisco. Apesar de não termos passado por nada de errado, todo mundo nos alertava para termos cuidado com possíveis roubos nestas cidades.

Com a amiga Carolina na praia em Chincha Alta

Com a amiga Carolina na praia em Chincha Alta

Encontramos um pouco de tranquilidade em Chincha Alta, onde encontramos a amiga Carolina que conhecemos em Cusco e ela nos levou para conhecer o que tem de principal na cidade, a culinária. Nos levou para comer Carapulcra com Sopa Seca, Colado (doce de feijão), um doce de mandioca e o melhor de tudo foi uma bebida chamada Cachina, que é tipo um vinho, uma delícia! Compramos uma garrafa de Cachina e um cado de comida local na feira e fomos pra praia passar a tarde.

Um belo pôr do sol na praia em Chincha Alta

Um belo pôr do sol na praia em Chincha Alta

De lá seguimos para chegar à Lima, capital do país. Como qualquer babilônia, a entrada da cidade foi um caos e por fim conseguimos chegar no Hostal que a Lívia tinha reservado e conseguido um bom preço pra gente, em Miraflores.

Passamos 3 noites em Lima, compartimos muito com a Livia e sua mãe, que nos fizeram uma feijoada maravilhosa e nos receberam muito bem. Aproveitamos para fazer a missão de pegar a carta do IPD – Instituto Peruano de Deporte (veja carta). Demos um rolé de bike pelo bairro miraflores, que é muito grande e bem bacana.

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Primeiras aventuras no Peru – Cusco, Machu Picchu e Vale Sagrado

Primeiras aventuras no Peru – Cusco, Machu Picchu e Vale Sagrado
Saindo de Copacabana - Adeus Bolívia!

Saindo de Copacabana - Adeus Bolívia!

Cruzamos a fronteira entre Bolívia e Peru às margens do lago Titicaca, conseguimos 3 meses de visto e iniciamos nossas pedaladas no Peru, rumo aos Vales Cusqueños e a capital do império Inca – Cusco. A ansiedade era grande para conhecer mais um país e para encontrar o motivador de nossa viagem Antonio Olinto, que também estava em viagem pelo Peru.

Imigração da Bolívia

Imigração da Bolívia

Katerine, Cachorra que nos acompanhou por 30km correndo!

Katerine, Cachorra que nos acompanhou por 30km correndo!

Na beira da estrada muita agricultura familiar, o povo colhendo Quinua e produzindo cordas artesanalmente, como uma continuação da Bolívia. Nossa primeira noite no Peru foi em um salão de artesanato, num mirante com uma linda vista para o lago Titicaca.

Família produzindo cordas artesanais

Família produzindo cordas artesanais

Uma coisa que mudou muito quando entramos no Peru é que somos tratados como gringos, algumas pessoas ficam nos pedindo dinheiro, dando mal exemplo paras as crianças, que fazem a mesma coisa. Na Bolívia interagimos mais com as crianças, pois fomos vistos mais como seres de outros planetas que inspirava a curiosidade da garotada. Aqui no Peru, passamos pedalando e as crianças gritando “Gringo! Invitame plata!”. Nada que apague o brilho do sorriso dos Peruanos, que em sua maioria tem nos recebido de forma especial.

Ciclotrabalhador!

Ciclotrabalhador!

Em Puno passamos quase 2h para encontrar um alojamento barato e com banho quente, pois já fazia 3 dias que não nos banhávamos. Encontramos um em frente à rodoviária que cobrou 20 soles para os três. O problema é que mentiram quanto à água quente. Reclamamos muito, ameaçamos até chamar a polícia e conseguimos um ínfimo desconto de 1 sol a menos cada um.

Bike-Taxi na cidade de Puno

Bike-Taxi na cidade de Puno


O transporte básicos das cidades que estamos conhecendo são umas motos modificadas, que parecem mais uma carroagem. Tem também o bike-taxi, que são umas bikes modificadas que carregam até 3 pessoas. É estranho ver os passageiros numa boa e um coroa pedalando, mas de qualquer maneira é um transporte coletivo limpo, sustentável e saudável. Muito interessante! Idéia aprovada!

Adeus Titicaca

Nos despedimos do lago Titicaca e continuamos nosso caminho rumo a Cusco. Seguíamos no altiplano que liga os países, o relevo apresenta poucas subidas e a vegetação é toda de um capim marrom e ralo típico da altitude andina. A noite tem feito muito frio e estamos buscando sempre lugares fechados para dormir.

Um lugar inusitado que dormimos foi um celeiro, cheio de palha e bosta seca de alpacas e llamas. Jogamos algumas palhas limpas no chão, armamos as barracas e quando terminamos de jantar a família que mora ao lado entrou no celeiro com uma panela de arroz doce e chá. Uma atitude especial, pois são muito humildes e vivem praticamente do que produzem em sua terra. No dia seguinte de manhã voltaram com quinua com leite, uma delícia de cereal. Melhor do que ganhar a comida é a interação, é sentir que a pessoa se preocupou com você e essa compaixão temos sentido durante toda a viagem.

Celeiro de llamas e alpacas, nossa casa por uma noite

Celeiro de llamas e alpacas, nossa casa por uma noite

Depois que saimos do Brasil não conhecemos nenhum brasileiro que estivesse viajando por conta própria, os primeiros foram uns motoqueiros, pai, filho e um amigo, do estado do Paraná. Estavam em uma expedição entre Argentina, Chile, Bolívia e Peru e indo para Machu Picchu. Com suas motos ultrapotentes, eles foram até Machu Picchu, voltaram e nós ainda estávamos no caminho.

Brasileiros que conhecemos na estrada

Brasileiros que conhecemos na estrada

A região da cidade de Ayaviri é muito bonita, com umas formações rochosas diferentes, como uma Chapada, e uma energia muito forte. Dormimos em um hotel por 10 soles cada um numa cama muito boa e aquele banho quente que estávamos buscando! Pela manhã, em nossa parada para o primeiro lanche na estrada, apareceu Roberto um Mexicano cicloturista, que estava vindo desde do Ushuaya, com meta de chegar no México em 6 meses. O cara disse que já pedalou 250km num dia, praticamente um psicopata! Uma coisa muito maneira do cicloturismo são as diversas formas que se pode praticá-lo.

Chapada perto de Ayaviri

Chapada perto de Ayaviri

Roberto, cicloturista mexicano

Roberto, cicloturista mexicano

Passo La Raya, há 4.380m

Passo La Raya na divisa dos estados e Puno e Cusco

Passo La Raya na divisa dos estados e Puno e Cusco

Pedalamos o dia todo no plano e na hora que começamos a subir para o passo que se chama La Raya, há 4.380m, paramos em um povoado para dormir. Conversamos com o prefeito da cidade, que estava bêbado, mas liberou de dormimos em uma sala de reunião na Prefeitura, aos pés do nevado Kunurana. Nesse dia muitas crianças ficaram interagindo com a gente, pedindo para cantarmos músicas em português, curiosas com a viagem, com nossas coisas. É um momento bacana, porque as crianças sempre nos contam muitas histórias da região, tentam sempre nos ensinar alguma coisa de sua língua, cantam música para nós também, é uma troca massa demais.

Neste caso disseram quem ninguém sobe o Kunurana, pois a montanha come gente.

Vales Cusqueños

Passamos pelo passo La Raya, que divide os estados de Puno e Cusco e começamos a descer, passando por um vale já com árvores e verde, muito diferente do amarelo e cinza que nos acostumamos na altitude. As cidades começam a ter mais estrutura, os mercados tem mais variedade de alimentos como fruta, legumes e também dos industrializados.

Nesse trajeto, em um dos hostais que dormimos nos deram o golpe da ducha quente denovo, estava fria! Tivemos que pagar a mais pra poder usar o banheiro com água quente. Tem umas pessoas bem cara de pau e são essas pessoas que fazem a má fama que o peruano tem de desonesto.

Pedalando pelos Vales Cusqueños

Pedalando pelos Vales Cusqueños

A estrada desce acompanhando um rio, nos pés de umas montanhas muito altas. No caminho encontramos um casal cicloturistas argentinos que estavam indo para a Bolívia. Galera rodou a América do Sul e tá voltando pra casa. Foi quase um dia todo de descida, com umas subidas fortes para chegar na cidade de Urcos, onde passamos a noite. A cidade fica no trevo da estrada Interoceânica, que leva à Porto Maldonado e a fronteira com o Brasil no Acre.

Cusco

A entrada de Cusco foi terrível. Pedalamos uns 20Km já dentro da cidade com um trânsito terrível. Na chegada tem até uma ciclovia, pelo menos era para ser uma ciclovia. Muito entulho acumulado pelo caminho e em todos os cruzamentos tinha algum carro estacionado atrapalhando seguir por ali, então pedalamos enfrentando o trânsito mesmo.

Chegamos no centro histório da cidade, passamos por umas ruas estreitas de pedra até a famosa Praça de Armas. Foi bem chocante a hora que chegamos, pois estávamos na capital do antigo império Inca, e a praça principal da cidade é rodeada por imponentes igrajas católicas. Paramos sentados alguns minutos, refletindo sobre a colonização e suas influências ali, quando parou um taxi e saiu um cara falando: “E ai cara, beleza??”. Começamos a conversar e ele, muito emocionado, nos disse que também estava viajando de bike, nos convidou para ir para o hostal onde ele estava que ia pagar uma noite para nós. Aceitamos o convite e fomos.

Praça de Armas em Cusco

Praça de Armas em Cusco

Chegamos no Hostal Estrellita, que é o mesmo que os amigos suiços que conhecemos em La Paz nos indicaram. Edmilson nos contou que esta viajando há mais de 3 anos e está voltando pra casa agora. Ele foi o primeiro cicloturista brasileiro que conhecemos.

Edimilson cicloturista - Brasil vai!!

Edimilson cicloturista - Brasil vai!!

A cidade tem vários museus e ruínas. Caminhar pelas ruas de Cusco é uma volta ao passado. A arquitetura colonial tem muita influência Inca, pois foram contruídos pelos escravos. As igrejas foram contruídas por cima de antigos templos e quanto mais vai se conhecendo, mais vai entendendo como exército e igreja trabalharam juntos para colonizar o império Inca.

Igreja construída sobre templo do Império Inca

Igreja construída sobre templo do Império Inca

Rua no centro de Cusco

Rua no centro de Cusco

Visita da mãe do Kico

Marina, mãe do Kico, veio nos encontrar em Cusco e ficou 10 dias conosco. Fez feijoada e outras comidas pra gente, deu um gostinho de casa para os três.

Tiago estava com dores nos pés e não sabia quando ia poder ir para Machu Picchu, então Kico e Marina foram antes para conhecer a famosa ruína Inca. Depois foram também conhecer as ilhas flutuantes de Puno.

Ter recebido a visita da minha mãe, tê-la levado para conhecer Machu Picchu e o lago Titicaca foi muito especial para mim. Momentos em que matei a saudade de casa e do carinho da família. Kico Zaninetti

Interagindo com a galera no Hostal.

Interagindo com a galera no Hostal.

Marina vestida de Senhora de Urcos, nas ilhas flutuantes em Puno

Marina vestida de Senhora de Urcos, nas ilhas flutuantes em Puno

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Machu Picchu

Machu Picchu, foto clássica!

Machu Picchu, foto clássica!

A missão para Machu Picchu foi feita em duas expedições diferentes. Kico foi antes com sua mãe por conta do tempo que ela passaria em Cusco e Caseh foi uns dias depois com a amiga Annie. Tiago estava com dores nos pés e não quis arriscar a caminhada, como já tinha ido em 2008, achou melhor ficar em Cusco.

Machu Picchu é um lugar extremamente especial na face da terra. É uma ruína Inca muito bem preservada (muita coisa foi refeita pra gringo ver) e é construída no topo de uma montanha que fica localizada em um cânion coberto de verde cortado pelo rio Urubamba.

Ruínas no caminho para Machu Picchu

Ruínas no caminho para Machu Picchu

Para se chegar lá tem que tomar um trem desde Ollantaytambo ou encara alguns dias de caminhada com um visual fantástico. Para ir andando existem várias opções de trilha, sendo a mais famosa, mais cara e mais concorrida, a Trilha Inca. Outra opção de caminhada é ir pelo trilho do trem desde Ollantaytambo (caminho feito pelo Caseh).

Chega-se primeiro à cidade de Águas Calientes, que fica ás margens do Rio Urubamba e é uma cidadezinha totalmente voltada para o turismo, cheia de restaurantes e hostals. De lá, são 1:30 min de trilha até a portaria de Machu Picchu.

Ver aquela cidade de pedra de perto é uma sensação incrível. A conexão dos Incas com a natureza é inspiradora e só estando lá e olhando as montanhas ao redor, a perfeição das construções, as trilhas e os templos, para entender um pouco da história antiga dessa civilização que foi devastada pelos espanhóis.

El Templo de las Tres Ventanas

El Templo de las Tres Ventanas

Além da cidadela em si, conhecemos também as montanhas Huayna Picchu e a montanha Machu Picchu, ponto mais alto do parque. Cada um destes lugares apresenta um panorama diferente das ruínas e é incrível ver tudo de cima.

Machu Picchu visto do seu ponto mais alto

Machu Picchu visto do seu ponto mais alto

Casa do Beto e Dyani

Nesse meio tempo em Cusco a Dyani, amiga que nos foi apresentada pelo Eber de Oruro, nos convidou para ficarmos na casa de seu namorado, Beto. Foi ótimo, pois tínhamos um encontro com Olinto e Rafa, que estava chegando em breve em Cusco por uma rota diferente da que íamos fazer. As pessoas algumas vezes nos acolhem de uma forma que é até difícil saber como retribuir. Casa confortável, com cama macia e banho quente e todos os dias o casal fazia uma comida típica do Peru para nos apresentar, nos trazia doces, coisas típicas da região e nos apresentou para seus amigos. Em nossas conversas, Beto e Dyani nos contavam sobre a história dos Incas e de como é a vida hoje na região.

Almoço para comemorar o aniversário do Kico com os amigos Cusqueños

Almoço para comemorar o aniversário do Kico com os amigos Cusqueños

Nos ensinaram muito e hoje são grandes amigos que fizemos na estrada e sempre mantemos contato pela internet.

Vale Sagrado e o econtro com Olinto e Rafa.

Quando ficamos sabendo da possibilidade de nos encontrar com o Antônio Olinto em nossa passagem pelo Peru, ficamos muito empolgados, pois, para quem não o conhece, foi o primeiro brasileiro que fez a volta ao mundo em bicicleta e foi inspirado em seu livro No Guidão da Liberdade que estamos na estrada hoje.

Ruínas de Ollantaytambo com Olinto e Rafa

Ruínas de Ollantaytambo com Olinto e Rafa

Quando Olinto e Rafa, sua esposa, chegaram em Ollantaytambo fomos até lá de van no mesmo dia para encontrá-los. Era fim de tarde quando enfim conhecemos o cara que nos inspirou a estar vivendo essa viagem hoje. Passamos o dia juntos, trocamos muitas idéias, visitamos uma ruína que tem ao lado da cidade e combinamos de ir a Cusco e voltar à Olantaytambo com nossas bicicletas, enquanto eles iam conhecer Machu Picchu.

Chegamos em Cusco, ajeitamos uma bagagem bem leve para fazer um cicloturismo de apenas 4 dias pelo Vale Sagrado e partimos pedalando. Depois de muita subida e descida, chegamos na cidade de Maras, onde pernoitamos no pátio de uma igreja, com um visual de frente a umas montanhas nevadas e como Vale Sagrado lá embaixo, bem show.

Caminho para Ollantaytambo

Caminho para Ollantaytambo

Saímos de Maras por uma estrada de chão que leva às ruínas de Moray, que era um laboratório agrícola dos Incas, bem interessante, mas nada comparável com a descida alucinante que fizemos a partir dali até chegar na beira do rio Urubamba, já no meio do Vale Sagrado.

Ruínas de Moray

Ruínas de Moray

Chegamos em Ollantaytambo e encontramos com o casal que estava exausto da caminha que fizeram de Águas Calientes até Ollantaytambo. Jantamos juntos e dormimos cedo.

A pedalada a Pisac foi descendo o rio, pedalando e conversando muito com os dois. A interação com Olinto e Rafa foi muito fácil, simples e rica. Falamos sobre viagem, vida, religião, no meio de muitas brincadeiras e risadas.

Pedalando e aprendendo

Pedalando e aprendendo

Subimos para Cusco, e fomos parando para descansar e conhecer as ruínas Incas que tem pelo caminho. Em uma das ruínas, o segurança disse liberar a entrada para nós sem termos que pagar, mas teríamos que cantar e sambar. Rafa deu o incentivo inicial e logo saiu o coro “Brasil, meu Brasil brasileiro…” e todos nós começamos a sambar… foi bem divertido.

Quando chegamos na cidade, já era noite. Perguntamos a Beto e Dyani se poderiam nos ajudar a conseguir uma hospedagem para nossos amigos e eles prontamente os convidaram para ficar em sua casa conosco.

Tarde brasileira na casa dos amigos peruanos

Tarde brasileira na casa dos amigos peruanos

Olinto e Rafa passaram duas noites conosco, compartilhando com Dyani e Beto numa reunião de pessoas que nunca poderíamos imaginar. Foi uma troca de idéias sensacional e cada vez mais percebemos que viajar nos proporciona conhecer pessoas muito especiais e isso tem nos feito evoluir muito como pessoas.

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Cicloturismo na Bolívia, uma volta às origens

Cicloturismo na Bolívia, uma volta às origens
Bolívia, um país multi-cultural

Bolívia, um país multi-cultural

A Bolívia é um país dividido entre dois povos: os collas e os cambas. O estado de Santa Cruz é o mais rico, de relevo plano e produtivo, onde estão as indústrias e a agropecuária. Essa região do país é a terra do dinheiro e dos cambas, que são os mestiços, decendentes de outros países. Os grandes vales e os andes é a terra dos Collas, povo nativo que vive sua cultura ancestral, misturados a sociedade contemporânea.

Ver todos os álbuns de fotos da Bolívia

Mulher manuseando as folhas de coca no estado de Santa Cruz

Mulher manuseando as folhas de coca no estado de Santa Cruz

Santa Cruz se diz autônoma e quer ser idependente do restante do país. Ganhamos na capital do estado uma cartilha: “A Guerra separatista de Santa Cruz”, que conta um pouco da história dessa “guerra” que separa a Bolívia. Essa divisão causa um grande racismo e preconceito de ambas as partes, afetando as áreas política, econômica e social do país.

Santa Cruz – Os Camba

O povo camba é bem brasileiro. Galera descolada, escutam sertanejo, gostam muito de karaokê e aquelas máquinas de música que coloca moeda. Muito dos que conhecemos disseram já estar juntando grana para ir na copa no Brasil. As cidades já estão invadidas pelos fast food chinês de frango, o famoso Pollo con fideo y papas, que seria o frango com macarrão e batata frita. O povo camba nos recebeu muito bem e conquistamos alguns amigos que com certeza fizeram muita diferença em nossa passagem pela Bolívia.

Mercado em Santa Cruz de la Sierra

Mercado em Santa Cruz de la Sierra

Ainda no estado de Santa Cruz encontramos os menonas, um povo com cara de Europeu, que os homens usam macacão e as mulheres vestido longo. Donos de terra e de grandes máquinas, foi um povo que nos chamou atenção. Andam de carroças ou uns tratores puxando uns trailler lotado dos menonas. Existem muitas versões sobre sua cultura, uns dizem que as mulheres tem que ter o máximo de filhos possíveis, outros dizem que andam de trator para os jovens não poderem ir muito longe. Escutamos uma história que tem uma senhora com 399 descendentes, é mole? Nos chamou atenção o dia em que uma família passava de carroça na beira da rodovia e um garotinho descia da carroça em movimento, pegava um lixo no chão e corria novamente para a carroça, parecia ser a diversão dele. O fato é que aquela gente loira de pele branca e olhos claros, no meio dos bolivianos é um contraste muito grande.

Menonas

Menonas

Menona na carroça

Menona na carroça


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Andes – Os Collas (indígenas)

Mulher no alto dos andes

Mulher no alto dos andes

O restante do país é na altitude, nos grandes vales e nos andes. O povo nativo ainda vive de forma primitiva, as mulheres em geral usam duas tranças e uma saia nos joelhos, sempre com pano muito colorido nas costas. São elas que carregam o peso, fazem uma trouxa com esses panos coloridos e carregam de tudo ali: bêbe, lenha e até balaios. Os homens usam calça social e camisa de botão. Eles normalmente trabalham na roça plantando, como motoristas de van e ônibus ou fazendo manutenção nas estradas. A cultura muda muito em poucas distâncias. Em alguns lugares dos andes os homens usam coletes e tocas muito coloridas e contrasta com o ambiente seco, frio e sem vida da altitude, que por onde passamos chega a 4.500 metros.

Galera de toca colorida

Galera de toca colorida

Culinária

A comida é muito diferente, eles comem até cabeça de porco, cozida dentro da de boi, gelatina de pata de cavalo e por aí vai. Aproveita-se de tudo!

Picante de Pollo

Picante de Pollo

Um almoço tradicional aqui é uma sopa de entrada, chamado de primeiro e um segundo prato, que é arroz, batata e alguma carne: chuleta, frango e cordeiro são os mais comuns. O povo aqui também gosta de uma pimenta, mas só de uma espécie, a Ají (arrí). Em todo restaurante tem um molho dessa pimenta sobre a mesa.

A higiene da galera também não é nada boa e comer em restaurantes bolivianos pela estrada é sempre uma situação de risco. Os bolivianos não são muito bons para preparar carne de boi, então estamos preferindo comer frango e cordeiro, que sempre é melhor por aqui.

Os nativos dos Andes vivem em condições extremas. Muitas vezes não conseguimos comprar nem um biscoito e quando se vê o local e as condições que vivem esse povo, conseguimos entender porque eles aproveitam tudo: precisam sobreviver.

Já comemos bastante coisa esquisita nessa temporada na Bolívia. Suco de balde, sopa de “bago”, linguiça que mais parecia um bolo de farinha e carne… Nessa brincadeira nós três já pegamos diarréia brava no país. Brincamos que a diarréia é quase um ponto turístico da Bolívia.

Artesanato

Artesã no centro de artesanato de Japo

Artesã no centro de artesanato de Japo

No alto dos andes que vimos os primeiros artesãos bolivianos, que fazem tecidos, cachecol, tocas e trabalham com lã de llama, alpaca e ovelha. As mulheres enquanto pastoram os animais, ficam com um bolo de lã em uma mão e um carretel em outra, fazendo os fios. O trabalho é todo artesanal, com uma bonita combinação de muitas cores.

Costumes e crenças

“Como fazem com mulheres? Estão a 10 meses sem?” Essa foi a pergunda de um camponês em Pojo, a 4.200m de altitude. Para eles não é normal trocar de mulher. Depois que se casa, não se separa de forma alguma. Mulheres que são deixadas pelo marido, são excluídas e dificilmente conseguem outro marido. Esse mesmo camponês nos contou de um costume onde tanto os homens, quanto as mulheres fazem encontros, tomam álcool e brigam, caem no tapa mesmo, só não sabemos valendo o que.

Igreja Católica no centro de Santa Cruz de la Sierra

Igreja Católica no centro de Santa Cruz de la Sierra

A religião é cristã, mas algumas pessoas ainda crêem na Deusa Inca da Terra “Pachamama”.

As crianças cantam o hino nacional todos os dias antes das classes, e nesse momento são tratadas como “soldaditos”.

Ficamos sabendo de algumas coisas bizarras, que nao sabemos se são verídicas. Dizem que antes de fazer qualquer construção, para que a casa seja protegida, alguma vida tem que ser sacrificada. Falaram até que em alguns casos enterravam as pessoas vivas na fundação das casas.

Língua

A Bolívia tem mais de 32 dialetos, sendo 4 as línguas mais importantes: Castellano, Quechua, Aymara e Guarani. No alto dos andes se fala muito Quechua e Aymara, e alguns antigos pouco falam castellano. Na escola estudam lingua 1 e 2. Em algumas regiões o Quechua é mais forte e em outras o Aymara, mas todos falam pelo menos uma das duas.

Sustentabilidade

Senhora colhendo batatas

Senhora colhendo batatas

Os campesinos, que são a maioria no país, plantam geralmente o básico para sobrevivência, batata, cenoura e hortaliças em geral. Os animais, gado, cordeiros e llamas são pastorados por crianças e adultos nas beiras das rodovias, ou ficam soltos nos morros de peder de vista. As condições são muito difíceis, além da altitude e do frio, o terreno é muito acentuado e para camponeses chegarem em suas plantações ou juntarem sua criação têm que andar muito pelas grandes montanhas andinas.

O povo do alto economiza muita água e em alguns pontos da serra brota água. É muito comum ver poços de armazenamento de água da chuva, que ficam espalhados pelas plantações nos grandes vales.

Nos chamou atenção que eles lavam copos, pratos e talheres em 2 baldes com água. Uma solução sustentável, mas que muitas vezes se torna “porca”, porque alguns não trocam aquela água o dia todo, aí também não resolve. Alguns brasileiros nos disseram: “Eles reclamam que gastamos muita água! Lógico, tomamos banho, lavamos roupa, lavamos louça…”. Tomara que encontremos o caminho do meio.

Feira em Paillon

Feira em Paillon

No país todo o que mais tem são os mercado popular e feiras de rua. É possível encontrar abacate, ameixa, banana, pêssego, maçã, tomate, pimentão, cenoura, beterraba e o que achamos muito interessante é que o granel é permitido. Compramos macarrão, arroz, feijão, tudo a granel e passamos a fazer nossa comida, para evitar as caganeiras. As feiras no interior do Andes é semanal, e se não fizer sua provisão direitinho, vai passar aperto. Isso aconteceu conosco, perdemos a feira e passamos um perrengue pra poder conseguir mantimentos para fazer nosso rango.

Chegando em Oruro

Chegando em Oruro

O lixo dos produtos industrializados estão espalhados pelas rodovias e cidades da Bolívia. No interior, quando não são queimados, as garrafas Pet, sacolas e latas de alumínio, principalmente, estão espalhados pelas ruas, estradas e rios. Tem quem leve esse lixo para os lugares mais remotos, mas não tem quem o colete, pois as embalagens vazias não tem valor.

Não existe saneamento básico pelo interior do país, esgotos escorrem no meio das ruas. Os banheiros secos são buracos no chão que depois são tampados. É triste ver o povo caminhando e as crianças brincando em meio ao barro de merda como se nada tivesse acontecendo.

Pelo interior do país, quem tem casa de alvenaria é diferenciado. As construções em Adobe são as mais comuns. O adobe é bem grande, feito de uma mistura de barro, cascalho e mato, parece ser um ótimo isolante térmico para o frio da região.

Pedalando pelo pantanal Boliviano

Pedalando pelo pantanal Boliviano

Nos chamou muita atenção no estado de Santa Cruz é que muitas regiões estão com sua mata nativa preservada. Eles criam gados e plantam no meio dessa mata, garantindo a preservação da natureza. O bioma parece ser um cerrado misturado com o pantanal.
No alto dos Andes não se vê sequer uma árvore devido ao clima extremo, à altitude, frio e vento intenso. O verde que existe é das plantações nos vales ou em cercados de pedras. A mata nativa das montanhas são arbustivas, cactus e um capim amarelado, que no inverno somem por debaixo da neve.

A seca vem castigando todo o país, vimos várias lagoas secas e poucas chuvas.

Governança

O presidente Evo Moralles é colla e odiado pelos camba e seu povo também não está muito feliz com o que o presidente vem fazendo. Chegando na fronteira ficamos sabendo um aumento de 85% no preço dos combustíveis. O povo parou o país em um movimento que foi chamado de “gasolinaço” e Evo voltou atrás. Vieram agora 2 aumentos seguidos, dessa vez no preço do açúcar.

Em Oruro presenciamos o “paro nacional”, que parou o país inteiro. Os trabalhadores foram para as ruas pedir um salário digno. Uma marcha de mineiros e outras classes de trabalhadores percorreu as ruas de Oruro soltando dinamites e gritando mensagens em prol da classe e contra o governo nacional. Nessa passeata vimos as mais diversas caras do trabalhador Boliviano, uma experiência muito rica.

Bolivia Brasileira

Outra coisa que tem muito na Bolívia também é brasileiro. A grande maioria faz faculdade de medicina, que por aqui custa em média 150 dólares mensais e com um pouco mais que isso, se aluga um bom apartamento também. Em Santa Cruz e Cochabamba é gente falando português pra tudo que é lado, se encontrando nos restaurantes de comida brasileira. As noitadas de funk e samba fazem a alegria dos estudantes.

Músicas brasileiras em português ou traduzidas são muito comuns em toda a Bolívia, principalmente o sertanejo. O governo brasileiro investe muito por aqui também, além de estradas financiadas pelo nosso país, parte da obra do Cristo de la Concordia, uma espécie de Cristo Redentor de Cochabamba, foi um presente da Petrobrás para a Bolívia.

Visão do Brasil

Quando passamos de bike com nossas bandeiras gritam: “Du Brasilll” ou “Brasilll, país mais grande do mundo!”. Eles conhecem os clubes de futebol, jogadores e as mulheres com pouca roupa. Todos falam também do ex-presidente Lula, gostam muito dele. Praticamente só conhecem a cidade de São Paulo e alguns tem o sonho de ir pra lá trabalhar.

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Um ano de viagem no lago Titicaca

Um ano de viagem no lago Titicaca
Painel do Lago Titicaca com o templo Pilcocaina, na Ilha do Sol

Painel do Lago Titicaca com o templo Pilcocaina, na Ilha do Sol

Quando saímos de La Paz já sabíamos que estávamos nos dirigindo para um lugar único no planeta. O Lago Titicaca fica na divisa da Bolívia e Peru há 3850m do nível do mar e foi muito importante para antigas civilizações como os Incas.

Acampados às margens do lago Titicaca

Acampados às margens do lago Titicaca

A sensação que se tem quando se está nas margens do lago é de estar no mar, porque o lago é gigantesco e em alguns pontos não se vê o outro lado. A diferença é que devido à altitude, faz muito frio na região e a água é geladassa e complica de nadar no lago (nós demos um tchibum de batismo).

Primeiro contato com o Lago Titicaca no caminho de La Paz a Copacabana

Primeiro contato com o Lago Titicaca no caminho de La Paz a Copacabana

Nosso primeiro contato com o lago foi no caminho para a Isla Suriqui, em uma rota alternativa que liga La Paz a Copacabana e foi feita para a peregrinação da Semana Santa. Pedalamos pelas ilhas e dormimos uma noite na Isla Suriqui, que tem uma vila de campesinos e pescadores morando lá, vivendo de forma bem peculiar e afastados da sociedade.

Com a criançada no mirante da Isla Suriqui

Com a criançada no mirante da Isla Suriqui

Mas nosso destino era Copacabana e chegamos lá depois de atravessar o lago pegando três barcos, de uma ilha para outra. Em uma das travessias, o moço que tava remando nos disse: “Não gosto dos barcos a motor, usa gasolina, polui e não é tão divertido!”.

Atravessando o lago Titicaca de barco

Atravessando o lago Titicaca de barco

Chegamos na cidade em véspera de Semana Santa e tinha um movimento de bandas tradicionais na rua e muitos lugares enfeitados com flores.

Copacabana

Copacabana é a principal cidade turística do lago Titicaca. O nome bem conhecido por nós brasileiros, vem mesmo da praia de Copacabana, pois as montanhas em volta da cidade dão uma certa semelhança com o Pão de Açúcar. Boa parte do seu comércio é voltado ao turismo, com muitos restaurantes, bares, hotéis, albergues e agências de turismo. Os principais pontos turísticos da cidade são o calvário na montanha que beira a cidade, com um mirante maravilhoso do lago e as ilhas do Sol e da Lua. E se passar por Copacabana, tem que comer uma truta nos quiosques que ficam às margens do lago.

Vista do porto de Copacabana

Vista do porto de Copacabana

Demos um rolé pela cidade e pela orla do lago, subimos no calvários, mas o que marcou nossa passagem pela cidade foi a celebração do nosso aniversário de viagem. Quanta história rolou nesse ano de estrada!

Para comemorar, alugamos um barco a vela de um pescador, tomamos 15 minutos de aula de como velejar e fomos só nós três numa missão de percorrer os cerca de 10km de Copacabana até a Ilha do Sol e voltar em segurança.

Amanhecendo durante a navegação no Lago Titicaca

Amanhecendo durante a navegação no Lago Titicaca

Como o pescador nos advertiu, teríamos que começar a velejar às 5h da manhã para pegar o vento no sentido da ilha e voltar às 13h para aproveitar o vento no sentido da cidade. Acordamos cedo, pegamos o barco no cais e começamos nossa navegação, ainda no escuro da madrugada. Saímos remando da baía de Copacabana, levantamos a vela e pegamos o primeiro vento com vela cheia antes do amanhecer.

Curtindo uma navegação no aniversário de viagem

Curtindo uma navegação no aniversário de viagem

Só que na ida não tivemos sorte, o vento foi ficando fraco até a hora que parou. Seguimos o resto do caminho até a ilha remando, nos revezando entre os dois remos e o timão do barco. Com algumas pausas para comer pão com sardinha e tomar as três cervejas que levamos para comemorar o aniversário. Demoramos mais que o previsto, mas conseguimos chegar na Ilha do Sol, no lado norte onde tem as ruínas Incas do Templo Pilcocaina, os Jardines del Inca e a Escalera del Inca.

Templo Pilcocaina na Ilha do Sol

Templo Pilcocaina na Ilha do Sol

Escalera del Inca na Ilha do Sol

Escalera del Inca na Ilha do Sol

Ficamos lá contemplando aquele mundo de água, as montanhas brancas da Cordilheira Real, as ruínas, tudo compondo um só visual de tirar o fôlego. Às 13h saímos e pegamos um vento bom até chegar em Copacabana.

Ilha no Lago Titicaca

Ilha no Lago Titicaca

Primeira missão como velejadores foi cumprida com sucesso, uma experiência que vamos levar pra frente. Vai que depois de dar a volta no mundo por terra não cismamos de fazer por água?!

O Lago Titicaca e principalmente as pessoas que vivem ao redor dele nos ensinou muito. Sustentabilidade está na simplicidade de viver da natureza, de explorar seus recursos sem destruir e isso esse povo sabe fazer muito bem!

Vista do lago Titicaca do morro do calvário

Vista do lago Titicaca do morro do calvário

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Montanhismo no Huayna Potosi – La Paz (6088m)

Montanhismo no Huayna Potosi – La Paz (6088m)
Montanhismo no Huayna Potosi

Montanhismo no Huayna Potosi

Em La Paz, na Casa de Ciclistas, conhecemos Jean-Christoph e Catherrine, um casal de cicloturistas suíços que viajam em uma bicicleta Tandem. Eles são montanhistas também e nos mostraram o blog que eles e mais uns amigos sobem grandes montanhas européias com uma Jaccuzzi! Vale a pena conhecer o site Extreme Jaccuzzi e ver o banho quente no topo do Mont Blanc, maior montanha dos Alpes.

Certo dia eles estavam na casa cheios de equipamentos de montanha, que tinham alugado para subir a montanha Huayna Potosi, com seu cume a 6088m de altitude. Dois dias depois chegaram e nos mostraram as fotos. Ficamos de cara e queríamos ver aquelas maravilhas com os nossos olhos. Fomos em várias agências e decidimos subir com o guia que eles tinham nos indicado, Juancho, da agência Altitud 6000. O preço: U$100 por pessoa. Isso já era fim de tarde e agendamos a subida para o dia seguinte. Detalhe, nenhum dos três nunca tinha posto o pé na neve. Fomos para casa ajeitar nossas coisas para partir no dia seguinte de manhã.

Primeiro dia – A preparação

Chegamos na agência às 8:30, e Juancho analisou nossos equipamentos para ver o que serviria para subirmos, e nos emprestou outros. No caminho para montanha compramos as coisas para comer e seguimos em seu carro, junto com sua mulher Trifonia, até chegar no pé da montanha Huayna Potosi há 4700m. Lá perto funcionava uma antiga mina de estanho que há muitos anos era uma das mais importantes da Bolívia. Hoje ainda funciona para pequenas quantidades de extração e o pior é que contamina uma represa que provê água para La Paz. Vimos um cemitério só de mineiros que morreram lá.

Cemitério de mineradores e a montanha Huayna Potosi

Cemitério de mineradores e a montanha Huayna Potosi

Primeira vez que vimos e tocamos na neve! Parece bobeira, mas isso era muito importante para nós. Primeiro dia de caminhada foram poucos kilômetros e o mais difícil foi se adptar com a bota para neve, cerca de 1,5kg cada pé. O tempo estava fechado e nevou! Muito bonito ver aqueles flocos de gelo voando! Diferente demais para nós.

Nevando enquanto subíamos ao refúgio alto

Nevando enquanto subíamos ao refúgio alto

O primeiro dia de subida leva até o Refúgio Alto há 5180m e lá conhecemos uma galera de gringos que iriam subir a montanha. Na parede do abrigo, muitas assinaturas e dedicatórias de quem já subiu. Para nossa surpresa, uma bandeira de Minas Gerais com os guerreiros conterrâneos que já fizeram essa aventura. À tarde, Juancho nos deu um breve treinamento de como caminhar na neve usando os crampones e usar os equipamentos de segurança. Dormimos às 19 horas para acordar 1 hora da madruga, pois às 2h era o início da caminhada.

Tomando um chá de coca no refúgio alto. Reparem na bandeira de Minas Gerais na parede

Tomando um chá de coca no refúgio alto. Reparem na bandeira de Minas Gerais na parede

Segundo dia – O cume do Huayna Potosi

Acordamos 1:15 am, tomamos um café reforçado, arrumamos as coisas e começamos a caminhar às 2:15 am, todos juntos, amarrados uns aos outros por uma corda. O céu estava estrelado, não ventava e estava “calor”, cerca de 5ºC.

O início da caminhada às 2h da matina

O início da caminhada às 2h da matina

“Não penso muito nas dificuldades, quero andar, chegar no cumbre e ver paisagens que marcarão minha vida” Caseh Werner

Caminhar no gelo era missão muito nova para nós. A subida era forte e faltava ar. Juancho nos deu folhas de coca para mascar e melhorou bastante. Logo avistamos La Paz, toda iluminada, e nós isolados no meio da montanha nevada! Chegamos aos 5850m quando começou a amanhecer. Nesse momento tivemos a noção de onde estávamos.

Cores incrívels no amanhecer

Cores incrívels no amanhecer

“Ter de fazer minhas necessidades em uma montanha nevada há mais de 5800m, no meio da madrugada, fazendo -5ºC foi realmente uma experiência inesquecível. Mas seguir a subida na situação que eu estava era impossível.” Kico Zaninetti

Podíamos ver outros cumes de montanhas da Cordilheira Real abaixo de nós. Os primeiros raios de sol refletiam nos glaciares, pintando a neve de rosa e nos mostrando uma paisagem que só vimos parecido nas revistas de aventura. No caminho ultrapassamos alguns grupos e cruzamos com outros voltando, que haviam desistido.

A cada momento a neve era pintada de uma cor diferente

A cada momento a neve era pintada de uma cor diferente

Juancho não parava de falar: “Vamos chicos, apurente!”. E nessa seguiamos, um pé na frente do outro, cada vez mais lento, por conta da altitude, os passos eram como de astronautas! Quando chegamos nos 6000 metros, quase no cume, sentimos muito o peso da altitude, o cérebro já não funcionava direito, o corpo não respondia aos comandos e era pirambeira pra tudo que é lado.

Uma pausa para descansar perto dos 6000m

Uma pausa para descansar perto dos 6000m

Chegamos na crista que leva até o cume, e caminhamos por 250m em um espaço de menos de 1m de largura, com penhasco para os dois lados e qualquer erro seria fatal. Quando chegamos no cume a 6088m de altitude, misturou fadiga física e psicológica, com o visual surreal e a emoção tomou conta de nós. Subir até o cume da Huayna Potosi foi uma experiência única, muito difícil, onde chegamos no nosso limite.

Na crista, poucos metros antes do cume do Huayna Potosi

Na crista, poucos metros antes do cume do Huayna Potosi

“Quando estava na crista, veio na minha cabeça tudo que passei, desde o início da viagem para estar ali, olhei pro Tiago e pro Kico, os dois muito cansados e tudo isso misturado com a paisagem que meus olhos viam fez desse momento um dos mais emocionantes dessa viagem.” Caseh Werner

“Quando chegamos no cume, a sensação de vitória, o cansaço, o momento espiritual que venho vivendo e o visual estonteante das montanhas me fez cair em um choro de uma mistura de muitas emoções.” Kico Zaninetti

No cume tiramos algumas fotos com a bandeira do Brasil e a de Minas Gerais (que pegamos no abrigo, mas já está de volta lá na parede e com as nossas assinaturas) e do visual maravilhoso. Fizemos um lanche reforçado para aguentar a descida até o abrigo.

No cume!

No cume!

Visual da Cordilheira Real, do cume do Huayna Potosi

Visual da Cordilheira Real, do cume do Huayna Potosi

A descida teve que ser rápida, pois ja eram 8:40 am e o sol forte já derretia a neve e caminhar na neve molhada é uma péssima idéia. Descemos sem muitas paradas, com Juancho nos apressando e a passos largos. Faltando pouco para chegar no abrigo a neve já estava bem úmida e agarrava na bota, deixando o chão escorregadio. Tomamos alguns tombos mas chegamos bem ao abrigo, destruídos e todos com caganeira.

Avistando o abrigo

Avistando o abrigo

Relaxamos por cerca de uma hora e descemos até o carro. Chegamos em La Paz, meio sem entender direito toda essa experiência. Caminhamos em um dia cerca de 12 horas, até 6088m de altitude, subimos Huayna Potosi!

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Cicloturismo para Coroico na Estrada da Morte (La Ruta de la Muerte)

Cicloturismo para Coroico na Estrada da Morte (La Ruta de la Muerte)

Download do GPS Tracklog da Estrada da Morte (La Ruta de la Muerte)

Um dos principais destinos dos turistas aventureiros em La Paz, a Estrada da Morte (Ruta de la Muerte) também conhecida como Death Downhill, é uma estrada antiga que liga La Paz à pequena cidade de Coroico, situada no vale dos Yungas, no meio da floresta. Esta estrada é uma descida de 70Km que começa em La Cumbre (30Km de La Paz), há 4700m de altitude e termina em Yolosa, um povoado com altitude de 1200m.

A estrada foi considerada há uns anos atrás como a mais perigosa do mundo. Realmente, para caminhões e ônibus a estrada deve ser um pesadelo, mas hoje o trânsito por lá se restringe a poucos veículos para levar turistas que querem conhecer a estrada, pois já possui uma nova estrada asfaltada que leva para o lugar e todo o tráfego pesado passa por lá.

Para ciclistas, a estrada não é tão “de la muerte” assim. Claro que se for um psicopata da velocidade, tem chance de passar direto em uma das muitas curvas sinuosas e vazar despenhadeiro abaixo, mas se descer de boa, fazendo cicloturismo ao invés de downhill, não tem risco e a experiência da viagem será sensacional!

Nós não queríamos ir com as agências de turismo aqui de La Paz. Já temos nossas bicicletas e queríamos passar uma noite em Coroico (as agências fazem bate-volta no mesmo dia). Então conversamos com os outros ciclistas que estavam hospedados conosco na Casa de Ciclistas em La Paz: o casal suíço Catherine e Jean-Christoph e o francês Alex Gauquelin e todos animaram de formarmos um grupo para fazer esta estrada.

Equipe: Jean-Christoph e Catherine (Suíça), Kico, Caseh e Tiago (Nova Origem) e Alex (França)

Equipe: Jean-Christoph e Catherine (Suíça), Kico, Caseh e Tiago (Nova Origem) e Alex (França)

Cristian, o dono da Casa de Ciclistas é também guia de ciclismo e conhece tudo na região. Nos deu as dicas de como fazer por nossa conta. Combinamos com uma van adaptada para carregar bicicletas, para nos levar até La Cumbre.

Acordamos cedo, encontramos a van, ajeitamos nossas bicicletas no bagageiro e seguimos na mobilidade a subida até La Cumbre, ponto situado há 30Km da cidade, há uma altura de 4700m, de onde começa a descida.

Chegando em La Cumbre já foi uma experiência fantástica. Em meio à Cordilheira Real, o local fica cercado de montanhas cobertas de neve, com vista para a montanha Huayna Potosi e com uma belíssima lagoa.

O pedal começa entre os picos nevados em La Cumbre (4700msnm)

O pedal começa entre os picos nevados em La Cumbre (4700msnm)

A partir dali tem duas opções para os primeiros 30Km de descida: por asfalto (usada pelas agências de turismo) ou pelo trecho de terra e pedra da antiga estrada. Escolhemos ir pelo segundo trecho, que é o início de outro rolé famoso de bike de La Paz, conhecido como Ghost Ride.

A estrada de pedra passa beirando montanhas gigantes, de onde descem várias cachoeiras de água de desgelo formando pequenos rios que cortam pelo meio da estrada. A maioria deles se cruza pedalando mesmo, mas algumas vezes tivemos que descer da bicicleta para atravessar o canal d’água.

Os primeiros 30Km fizemos pela estrada chamada de Ghost Ride

Os primeiros 30Km fizemos pela estrada chamada de Ghost Ride

O trecho termina em uma ponte há 3100m que divide o caminho para Chulumani, mas para ir a Coroico tem que tomar a subida à esquerda, para Unduavi e chegar ao asfalto. Uma subida bem pesada, mas curta, de apenas 2Km. A partir daí, são cerca de 10Km de aslfalto, em um trecho de pequenas subidas e descidas.

A única subida do trecho. Pesada, porém curta 2Km

A única subida do trecho. Pesada, porém curta 2Km

Pegamos uma neblina forte nessa parte, que não dava para ver 20m a nossa frente e uma chuva leve nos tomou. Não estava tão frio, então foi tranquilo. Chega-se em um ponto, onde uma placa indica que não se pode mais seguir de bicicleta pelo asfalto e aí tem uma entrada para a direita para outra estrada de terra. É aí o início da famosa Ruta de la Muerte, mais 30Km de pura descida até o povoado de Yolosa.

Pegamos uma neblina forte no trecho de asfalto

Pegamos uma neblina forte no trecho de asfalto

Só de entrar na estrada já temos a sensação do choque de mudança de ambiente. A vegetação, que antes se restringia a arbustos, gramíneas e poucas árvores, se transforma em uma enorme massa verde, com árvores e samambaias gigantes.

A Estrada da Morte (Ruta de la Muerte) desce serpenteando a montanha

A Estrada da Morte (Ruta de la Muerte) desce serpenteando a montanha

A estrada tem apenas 2 a 3m de largura e desce beirando um cânion verde. Do lado esquerdo é um precipício de centenas de metros de profundidade. Uma das partes mais massa da descida são duas cachoeiras que caem no meio da estrada e temos que passar por baixo da queda d’água.

We survived the Death Road!

We survived the Death Road!

Na beira do precipício!

Na beira do precipício!

Cachoeiras caem no meio da estrada

Cachoeiras caem no meio da estrada

A natureza é muito preservada e com uma mata muito diferente da que estamos habituados. A sensação é de estar pedalando na floresta em uma trilha estreita, beirando um penhasco de um enorme vale verde.

Nós descemos tranquilos, parando várias vezes para tirar fotos do visual fantástico e sem correr riscos. No meio da tarde chegamos no povoado de Yolosa, há 1200m de altitude. Foi uma descida de 3500m em um só dia! Dali até Coroico é uma subida de 8Km. Decidimos pegar uma condução de 10Bs por cabeça para subir este trecho. Caseh e Alex subiram pedalando enquanto esperávamos a caminhonete e no meio do caminho, quando passamos pelos dois, Caseh tomou a condução também.

Nos divertindo com a Arara em Yolosa

Nos divertindo com a Arara em Yolosa

Chegamos no fim da tarde em Coroico e nos instalamos no Alojamento Coroico, ao custo de 20Bs por pessoa. De noite saímos para jantar e dar uma volta na praça dessa pacífica cidade, que fica no topo de uma montanha no meio dos vales Yungas.

No dia seguinte, para fechar com chave de ouro, descemos de bicicleta de Coroico até Yolosita, passando por uma estrada cercada de verde, plantações de café, laranja e outras frutas. Depois da baixada, mais 4Km de pedal pelo asfalto até Yolosita, onde conseguimos uma “carona” (custou 15Bs cada) em uma caminhonete para fazer a subida de 70Km e nos deixar novamente em La Cumbre.

Descendo de Coroico a Yolosita no dia seguinte

Descendo de Coroico a Yolosita no dia seguinte

Curtindo nossa "carona" de volta, de Yolosita até La Cumbre

Curtindo nossa "carona" de volta, de Yolosita até La Cumbre

De lá, pegamos a descida para La Paz. Os suíços foram todo o trecho por asfalto. Nós três e o Alex tomamos uma quebrada para a esquerda e fomos por uma estrada usada pelos mineiros, que passa por trás de uma enorme represa e de minas de estanho.

Voltando para La Paz pelo caminho da represa

Voltando para La Paz pelo caminho da represa

Depois voltamos ao asfalto e terminamos os últimos 20Km de descida até o centro de La Paz e a Casa de Ciclistas.

Como fazer a Ruta de la Muerte sem agências ou guia

Fizemos este trecho sem agências nem guia e só vimos vantagem nisso. O custo ficou muito reduzido, tivemos o tempo que quisemos para parar e tirar fotos, passamos a noite em Coroico e fizemos um outro rolé de volta para La Paz.

O custo médio das agências aqui para fazer um dia de passeio até Coroico é de 450 Bs (R$115). Nós gastamos 140Bs (R$35) cada, incluindo o alojamento e jantar na cidade.

Nossos custos (por pessoa):

  • Compras (lanche): 25Bs
  • Transporte La Paz – La Cumbre: 25Bs
  • Transporte Yolosa – Coroico: 10Bs
  • Alojamento: 20Bs
  • Jantar: 30Bs
  • Café da manhã: 15Bs
  • Transporte Yolosita – La Cumbre: 15Bs
  • Total por pessoa: 140Bs (R$ 35,00)

O único problema é que não encontramos lugar que aluga bicicletas aqui em La Paz. É bem provável que tenha, mas não vimos nenhum. Se tem sua própria bicicleta, nem pense em ir nas agências.

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Carnaval, trabalho e boas amizades. Nossa passagem por Oruro

Carnaval, trabalho e boas amizades. Nossa passagem por Oruro
Chegando em Oruro de bicicleta

Chegando em Oruro de bicicleta

O que seria um dia em Oruro acabou se transformando em 45 dias e o início de uma nova etapa na viagem. Chegamos em Oruro para arrumar o pneu da bicicleta do Tiago e dar uma olhada na cidade, sem grandes pretensões.

A entrada da cidade é muito feia e suja. Empresas de mineração, vários empoçados de água podre, muito lixo, crianças e cachorros no meio dessa bagunça, essa foi a primeira impressão que tivemos quando estávamos chegando.

Crianças na sujeira da entrada de Oruro

Crianças na sujeira da entrada de Oruro

Era época de pré-carnaval e o costume do carnaval boliviano é jogar água e espuma na galera. Os balões de água (globitos), armas de atirar água e os spray de espuma são sucesso em Oruro, onde tem o principal carnaval do país. Para não fugir da regra, fomos recebidos com spray de espuma na cara.

Pouco tempo depois, Marcelo, brasileiro, nos reconhece pelas bandeiras nas bicicleta e depois de um papo nos acompanhou para almoçar e nos apresentou a Eber, estudante de medicina que mora na cidade. Ele nos convida para ficarmos em seu apartamento que divide com mais três brasileiros que ainda estão no Brasil, pois as aulas só começariam daí algumas semanas.

Espaço confortável, cozinha para fazer nosso rango (e fizemos bastante comida), máquina para lavar nossas roupas. Acabou que resolvemos ficar uns dias para arrumar nossas coisas e Tiago se recuperar da sua gripe misturada com efeitos da altitude. Nesse tempo fomos vendo aos poucos o estilo de vida bem peculiar do orureño e os preparativos para o carnaval que estava por vir.

Temos que destacar o gosto por marchar que os cidadãos dessa cidade tem. Todo dia, sem excessão, passava alguma marcha de protesto por baixo da janela do apartamento. A maioria exigindo melhores condições salariais e de emprego. O pior de todos é quando a marcha era de mineradores. Eles chegavam explodindo dinamite pelas ruas às 8h da manhã e ter isso como despertador não era muito legal.

Faixa do Che em uma marcha pelas ruas de Oruro

Faixa do Che em uma marcha pelas ruas de Oruro

Homens e mulheres com faixas, panelas, megafone, marchando organizadamente, gritando seus direitos e muitas vezes tomando um trago. Faixas do Che Guevara eram freqüentes, já que o revolucionário tentou uma ação na Bolívia que resultou na sua morte.

Quando não tinha marcha, o que animava as ruas era o ensaio do carnaval. Os grupos desfilavam sem as fantasias, mas dançando suas coreografias e com as bandas tocando os ritmos típicos. Todo ensaio parava as ruas e muitas pessoas assistindo.

Ensaio para o carnaval nas ruas de Oruro

Ensaio para o carnaval nas ruas de Oruro

Carnaval de Oruro

Vendo todo esse movimento e com convite do Eber para dar mais um tempo por aqui, decidimos ficar para conhecer o famoso Carnaval de Oruro, declarado Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade pela UNESCO.

Tobas, estilo típico do carnaval boliviano

Tobas, estilo típico do carnaval boliviano

Nos dias de carnaval, do nada a cidade lotou! Muito movimento, gente do mundo inteiro pelas ruas, comércio um pouco mais caro que nas semanas anteriores, globitos, spray de espuma e muito álcool.

A prefeitura separa um circuito de ruas e avenidas por onde vão passar os desfiles oficiais do carnaval e nessas ruas foram instaladas arquibancadas. Algumas gratuitas e outras pagas, um pouco mais arrumadas.

Oso! Oso! Oso!

Oso! Oso! Oso!

E aí no meio vem a festa. No sábado e domingo de carnaval, os conjuntos desfilam entre as arquibancadas lotadas, dançando os estilos tradicionais Caporales, Tinkus, Morenada, Diablada, etc. Os bailarinos fantasiados e fazendo suas coreografias, embalados pelas bandas com instrumentos de sopro e bateria.

A banda passa e anima a galera

A banda passa e anima a galera

Os principais temas são de devoção à Pachamama e sobre a história da Virgem de Socavon, padroeira da cidade. Um festival de cores e música, muito diferente do carnaval que estamos acostumados no Brasil, uma festa inesquecível.

Anjo, símbolo do estilo Diablada

Anjo, símbolo do estilo Diablada

Na segunda-feira de carnaval, ainda empolgados para curtir mais, saímos na rua e o que presenciamos foi desanimador. Não tinha mais nada! O carnaval acontece no sábado e domingo e depois todo mundo desaparece, acabou. Na terça-feira é feriado, mas também sem festa. É o dia oficial de molhar quem passa na rua.

Trabalho, estudos bíblicos e futebol

Passado o carnaval, pensávamos em partir para La Paz, mas uma boa surpresa apareceu. Tínhamos enviado alguns e-mails para contatos da área de web no Brasil e oferecemos nossos serviços para fazer freelance, já que o Kico e o Tiago trabalhavam como programadores de sites e sistemas.

Recebemos duas respostas positivas e dois serviços para levantar um trocado, já que nossa grana tá cada vez mais curta. Como a casa em Oruro estava de portas abertas para nós e ainda tinha internet, foi o local perfeito para ficar mais um tempo e matar essas duas demandas.

“Fiquei muito satisfeito de reestabelecer antigos laços da área de web e de estar usando o trabalho que sei fazer bem a favor da escolha de vida que tomei. Pedalando e programando, quem diria!” Kico Zaninetti

E durante esse tempo, chegaram os outros moradores da casa, primeiro a manauara Val e depois o casal do Mato Grosso, Túlio e Paula. Todos são pessoas fantásticas e acabamos fazendo parte desta “comunidade” brasileira em Oruro.

Val, Eber, Túlio e Paula, amigos de Oruro em mais um delicioso almoço

Val, Eber, Túlio e Paula, amigos de Oruro em mais um delicioso almoço

Eles chegaram bem no dia do aniversário do Caseh e para comemorar compramos um bolo e refrigerantes para cantar o parabéns.

Todos são fiéis da Igreja Adventista e nos convidaram para fazer estudos bíblicos e fazer a guarda do sábado com eles. Para quem não sabe, a Bíblia diz que o dia a ser guardado é o sábado, e não o domingo, como está nos mandamentos católicos. Então, evitamos trabalhar e fazer qualquer tipo de atividade no sábado e aproveitamos também para acompanhá-los na igreja e fazer estudos bíblicos em casa, onde tiraram muitas dúvidas que tínhamos sobre a Bíblia e a história de Deus e Jesus Cristo. Foram momentos de muita emoção e paz.

Como bons brasileiros e aproveitando a disposição para esportes que o Eber tem, toda semana jogamos futsal, na companhia do argentino Ricardo. Nos primeiros jogos, ainda não estávamos tão bem aclimatados (Oruro fica há 3850m de altitude) e botamos o pulmão pela boca depois de cada corrida.

Kico, Ricardo (argentino) e Eber, depois de uma partida de futsal

Kico, Ricardo (argentino) e Eber, depois de uma partida de futsal

Passou um tempo e fomos nos acostumamos, aí o futebol já fluiu bem melhor. Formamos um time de brasileiros (com o argentino de brinde) e jogamos contra a galera boliviana. É difícil acompanhar o ritmo deles, mas nós temos mais futebol no pé, então deu pra fazer muito gol!

Por fim terminamos os trabalhos e nosso prazo na Bolívia estava expirando. Tínhamos que correr para La Paz para ir na migração e ganhar mais uns dias de prazo para conhecer os arredores de La Paz e também Copacabana, no lago Titicaca. Depois de uma despedida emocionada dos amigos de Oruro, pegamos um ônibus para chegar a tempo em La Paz e resolver essa treta burocrática.

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Subindo ao altiplano boliviano (Cochabamba a Oruro)

Subindo ao altiplano boliviano (Cochabamba a Oruro)
Altimetria de Santa Cruz de la Sierra à Oruro (400m a 4500m)

Altimetria de Santa Cruz de la Sierra à Oruro (400m a 4500m)

Cochabamba está a 2500m de altitude e foi a primeira capital Andina que conhecemos. A cidade está situada em um altiplano e é cercada por montanhas, o visual é muito diferente e bonito. Ficamos uma semana lá, tempo de nos recuperamos da caganeira, de lavarmos nossas coisas e conhecer um pouco de Cocha.

Vista de Cochabamba

Vista de Cochabamba

Nilds, brasileira que estuda medicina lá, nos acolheu em sua casa com muito carinho e nos apresentou mais amigos brasileiros que vivem por lá. Com essa galera tiramos um dia e fomos conhecer o Cristo de la Concórdia, cartão postal de Cochabamba.
Valeu Nilds! Nos vemos pelo Goiás!

Com a galera no Cristo de la Concórdia

Com a galera no Cristo de la Concórdia

Comendo a Pizza Interminable

Comendo a Pizza Interminable

Rumo a La Paz

As curvas da subida

As curvas da subida

Já saindo de Cochabamba, pegamos a primeira subida, de muitas curvas e pouco acentuada. No km 17 parece que chegamos no alto de uma montanha e de lá estamos pedalando por cumes de outras montanhas. De longe vimos a estrada por onde teríamos de passar e também a chuva que vinha em nossa direção.

Conseguimos um abrigo e a chuva chegou forte e gelada, deu medo imaginar nós naquela chuva sem abrigo. Aproveitamos para fazer uma sopa. A chuva parou já no final da tarde, pedalamos mais uns 4km e chegamos no povoado de Llavini e nos abrigamos na escola local. Brincamos bastante com as crianças, dançamos e demos boas gargalhadas! Essa interação é o melhor da história.

Criançada na escola do povoado Llavini

Criançada na escola do povoado Llavini

Fazer cicloturismo nos Andes é uma provação. Mais um dia de subida e mais subida. A estrada faz muitas curvas e de longe conseguimos ver para onde temos que subir, parece ser uma missão impossível com as bicicletas carregadas, mas quando conseguimos, a sensação de superação é forte. Neste trecho chegamos na casa dos 4000m e dormimos em mais uma escola no povoado de Pongo. Todos sentimos a altitude nas pedaladas, o coração parece bater na cabeça e falta oxigênio. Caseh foi o que mais sentiu a altitude, a noite deitou com a sensação de febre, corpo mole e dolorido.

Nessas subidas e na altitude, estamos pedalando uma média de 30km por dia. No caminho rolou um perrengue de chuva e frio. Chegamos nos 4200m e começou a chover, flocos, como neve! Sorte que estávamos em uma descida e logo apareceu uma casinha de adobe abandonada. Entramos e esperamos a chuva passar. Pedalamos um pouco mais até chegar em Confital, e mais uma vez dormimos em uma escola. Algumas crianças nos fizeram companhia enquanto preparávamos nossa janta.

Tiago e seus amigos de Confital

Tiago e seus amigos de Confital

Os 4000m

Os 4000m

Essa noite foi a mais fria da viagem, 3ºC. Acordamos, ajeitamos nossas coisas e as crianças começaram a chegar para aula. Muita neblina, frio e uma chuva fina. Algumas crianças de chinelo, todas vestidas com roupas andinas, bem peculiar. Fizeram uma formação de filas no pátio da escola e cantaram o hino da Bolívia, emocionante!

As cidadezinhas parecem ser muito tristes. A alegria parece estar somente no sorriso das crianças, que mesmo com suas barcas (chinelo feito de pneu) nos pés, pisando na água, no frio das montanhas, se divertem e riem por qualquer coisa. Os adultos não tem a mesma pureza e parecem carregar o peso de uma vida sofrida nas costas. Não é fácil viver no campo, onde tem mais pedra do que terra, muito frio, altitude e pouquíssima estrutura. Nessas horas nos damos conta do quanto somos privilegiados.

Nos sentíamos um pouco mal para pedalar, mas também não queríamos passar mais uma noite em Confital, então pedalamos somente 7km até o povoado Pojo. Lá fomos muito bem recebidos pela escola local. Conhecemos a Associação de Artesãos de Tecidos e compramos nossos gorros andinos. Rolou muita interação com as crianças, cantamos, dançamos e brincamos demais com elas.

Associação de Artesãos de Tecido de Pojo

Associação de Artesãos de Tecido de Pojo

O pai de uma das crianças ficou conversando conosco e nos contou que é cultura da cidadezinha homens e mulhers se juntarem para tomar álcool e lutarem entre si. Eles se casam e dizem ser fiéis e é muito raro ter uma separação. Está difícil de conseguir rango, quando encontramos alguma coisa é biscoito.

Quando estávamos saindo de Pojo, por sorte era dia de feira, que acontece uma vez por semana. Conseguimos comprar algumas bananas e legumes. Quando iniciamos nossa pedalada, um carro com adesivos da argentina nos parou. Era Emilio Scotto, o homem que está no Guinness Book por ter feito a maior viagem de moto do mundo, duas voltas ao mundo e mais de 700.000Km!

Emilio Scotto escrevendo uma dedicatória no livro que nos deu

Emilio Scotto escrevendo uma dedicatória no livro que nos deu

Eles nos deu muitas dicas, motivação e seu livro The Longest Ride com uma bela dedicatória. Depois de mais subida, chegamos no ponto mais alto da viagem há 4500m, La Cumbre! Sensação boa demais de chegar nessa altitude, e de bike!

Em La Cumbre, há 4500m de bicicleta!

Em La Cumbre, há 4500m de bicicleta!

Em seguida começamos a descer e rolou um acidente. Kico estava na dianteira e ao passar ao lado de uns trabalhadores na estrada, reconheceu que eram os amigos que tinhamos feito em Pojo, freiou para falar com eles e Caseh e Tiago que vinha logo atrás se chocaram com a bicicleta parada e capotaram. A roda do Tiago virou um 8 e nossos amigos nos ajudaram a desempenar a roda com pisões e até dar para pedalar. Kico ficou muito abalado por ter provocado o acidente e passou um tempo deitado no acostamento até a adrenalina baixar.

Os amigos ajudando a arrumar a roda do Tiago depois do acidente

Os amigos ajudando a arrumar a roda do Tiago depois do acidente

Ainda descendo, encontramos com uma dupla de cicloturistas japoneses que estam vindo desde o Alaska. Dia cheio de emoções!
Nos Andes sentimos falta de ver árvores e verde. As plantações são cercadas por muros de pedras, pois o vento gelado queima todas as plantas.

Os cicloturistas japoneses que encontramos na estrada

Os cicloturistas japoneses que encontramos na estrada

Dormimos em Lequepalca, não foi fácil arrumar lugar para dormir e quem nos solvou foi o médico Luiz do posto de saúde. Conversamos muito com ele, que nos contou um pouco sobre a saúde na Bolívia e na região. Ele nos disse que a mortalidade infantil é muito grande, que ainda morrem muitos de infecção intestinal e tuberculose. Segundo ele, existem famílias que vivem isoladas de tudo e que algumas nem estrada tem para chegar até suas casas.

Campanário do ano 1600 no povoado de Lequepalca

Campanário do ano 1600 no povoado de Lequepalca

Aproveitamos o fim do dia para conhecer um antigo campanário, construção do ano 1600 que tem ao lado do cemitério da cidade.

No dia seguinte continuamos a descer por belos vales, beirando um rio, casas de adobe e plantações de quinua. Do nada o vale acabou e chegamos em uma imensa planície, o altiplano boliviano há 3900m de altitude! Os Andes é uma cadeia de montanhas incrível.

Não deu 10 minutos que estávamos pedalando no altiplano e nosso celular tocou. Era a irmã do Tiago dando a notícia que sua avó faleceu. Triste demais receber essa notícia, longe de casa e no meio da estrada. Na entrada para Oruro decidimos ir para lá e passar um dia para conhecer a capital folclórica da Bolívia e arrumar a roda do Tiago.

Chegando em Oruro

Chegando em Oruro

O que seria uma noite em Oruro rendeu mais de 45 dias, mas isso é outra histoŕia.

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