Cruzamos a fronteira entre Bolívia e Peru às margens do lago Titicaca, conseguimos 3 meses de visto e iniciamos nossas pedaladas no Peru, rumo aos Vales Cusqueños e a capital do império Inca – Cusco. A ansiedade era grande para conhecer mais um país e para encontrar o motivador de nossa viagem Antonio Olinto, que também estava em viagem pelo Peru.
Na beira da estrada muita agricultura familiar, o povo colhendo Quinua e produzindo cordas artesanalmente, como uma continuação da Bolívia. Nossa primeira noite no Peru foi em um salão de artesanato, num mirante com uma linda vista para o lago Titicaca.
Uma coisa que mudou muito quando entramos no Peru é que somos tratados como gringos, algumas pessoas ficam nos pedindo dinheiro, dando mal exemplo paras as crianças, que fazem a mesma coisa. Na Bolívia interagimos mais com as crianças, pois fomos vistos mais como seres de outros planetas que inspirava a curiosidade da garotada. Aqui no Peru, passamos pedalando e as crianças gritando “Gringo! Invitame plata!”. Nada que apague o brilho do sorriso dos Peruanos, que em sua maioria tem nos recebido de forma especial.
Em Puno passamos quase 2h para encontrar um alojamento barato e com banho quente, pois já fazia 3 dias que não nos banhávamos. Encontramos um em frente à rodoviária que cobrou 20 soles para os três. O problema é que mentiram quanto à água quente. Reclamamos muito, ameaçamos até chamar a polícia e conseguimos um ínfimo desconto de 1 sol a menos cada um.
O transporte básicos das cidades que estamos conhecendo são umas motos modificadas, que parecem mais uma carroagem. Tem também o bike-taxi, que são umas bikes modificadas que carregam até 3 pessoas. É estranho ver os passageiros numa boa e um coroa pedalando, mas de qualquer maneira é um transporte coletivo limpo, sustentável e saudável. Muito interessante! Idéia aprovada!
Adeus Titicaca
Nos despedimos do lago Titicaca e continuamos nosso caminho rumo a Cusco. Seguíamos no altiplano que liga os países, o relevo apresenta poucas subidas e a vegetação é toda de um capim marrom e ralo típico da altitude andina. A noite tem feito muito frio e estamos buscando sempre lugares fechados para dormir.
Um lugar inusitado que dormimos foi um celeiro, cheio de palha e bosta seca de alpacas e llamas. Jogamos algumas palhas limpas no chão, armamos as barracas e quando terminamos de jantar a família que mora ao lado entrou no celeiro com uma panela de arroz doce e chá. Uma atitude especial, pois são muito humildes e vivem praticamente do que produzem em sua terra. No dia seguinte de manhã voltaram com quinua com leite, uma delícia de cereal. Melhor do que ganhar a comida é a interação, é sentir que a pessoa se preocupou com você e essa compaixão temos sentido durante toda a viagem.
Depois que saimos do Brasil não conhecemos nenhum brasileiro que estivesse viajando por conta própria, os primeiros foram uns motoqueiros, pai, filho e um amigo, do estado do Paraná. Estavam em uma expedição entre Argentina, Chile, Bolívia e Peru e indo para Machu Picchu. Com suas motos ultrapotentes, eles foram até Machu Picchu, voltaram e nós ainda estávamos no caminho.
A região da cidade de Ayaviri é muito bonita, com umas formações rochosas diferentes, como uma Chapada, e uma energia muito forte. Dormimos em um hotel por 10 soles cada um numa cama muito boa e aquele banho quente que estávamos buscando! Pela manhã, em nossa parada para o primeiro lanche na estrada, apareceu Roberto um Mexicano cicloturista, que estava vindo desde do Ushuaya, com meta de chegar no México em 6 meses. O cara disse que já pedalou 250km num dia, praticamente um psicopata! Uma coisa muito maneira do cicloturismo são as diversas formas que se pode praticá-lo.
Passo La Raya, há 4.380m
Pedalamos o dia todo no plano e na hora que começamos a subir para o passo que se chama La Raya, há 4.380m, paramos em um povoado para dormir. Conversamos com o prefeito da cidade, que estava bêbado, mas liberou de dormimos em uma sala de reunião na Prefeitura, aos pés do nevado Kunurana. Nesse dia muitas crianças ficaram interagindo com a gente, pedindo para cantarmos músicas em português, curiosas com a viagem, com nossas coisas. É um momento bacana, porque as crianças sempre nos contam muitas histórias da região, tentam sempre nos ensinar alguma coisa de sua língua, cantam música para nós também, é uma troca massa demais.
Neste caso disseram quem ninguém sobe o Kunurana, pois a montanha come gente.
Vales Cusqueños
Passamos pelo passo La Raya, que divide os estados de Puno e Cusco e começamos a descer, passando por um vale já com árvores e verde, muito diferente do amarelo e cinza que nos acostumamos na altitude. As cidades começam a ter mais estrutura, os mercados tem mais variedade de alimentos como fruta, legumes e também dos industrializados.
Nesse trajeto, em um dos hostais que dormimos nos deram o golpe da ducha quente denovo, estava fria! Tivemos que pagar a mais pra poder usar o banheiro com água quente. Tem umas pessoas bem cara de pau e são essas pessoas que fazem a má fama que o peruano tem de desonesto.
A estrada desce acompanhando um rio, nos pés de umas montanhas muito altas. No caminho encontramos um casal cicloturistas argentinos que estavam indo para a Bolívia. Galera rodou a América do Sul e tá voltando pra casa. Foi quase um dia todo de descida, com umas subidas fortes para chegar na cidade de Urcos, onde passamos a noite. A cidade fica no trevo da estrada Interoceânica, que leva à Porto Maldonado e a fronteira com o Brasil no Acre.
Cusco
A entrada de Cusco foi terrível. Pedalamos uns 20Km já dentro da cidade com um trânsito terrível. Na chegada tem até uma ciclovia, pelo menos era para ser uma ciclovia. Muito entulho acumulado pelo caminho e em todos os cruzamentos tinha algum carro estacionado atrapalhando seguir por ali, então pedalamos enfrentando o trânsito mesmo.
Chegamos no centro histório da cidade, passamos por umas ruas estreitas de pedra até a famosa Praça de Armas. Foi bem chocante a hora que chegamos, pois estávamos na capital do antigo império Inca, e a praça principal da cidade é rodeada por imponentes igrajas católicas. Paramos sentados alguns minutos, refletindo sobre a colonização e suas influências ali, quando parou um taxi e saiu um cara falando: “E ai cara, beleza??”. Começamos a conversar e ele, muito emocionado, nos disse que também estava viajando de bike, nos convidou para ir para o hostal onde ele estava que ia pagar uma noite para nós. Aceitamos o convite e fomos.
Chegamos no Hostal Estrellita, que é o mesmo que os amigos suiços que conhecemos em La Paz nos indicaram. Edmilson nos contou que esta viajando há mais de 3 anos e está voltando pra casa agora. Ele foi o primeiro cicloturista brasileiro que conhecemos.
A cidade tem vários museus e ruínas. Caminhar pelas ruas de Cusco é uma volta ao passado. A arquitetura colonial tem muita influência Inca, pois foram contruídos pelos escravos. As igrejas foram contruídas por cima de antigos templos e quanto mais vai se conhecendo, mais vai entendendo como exército e igreja trabalharam juntos para colonizar o império Inca.
Visita da mãe do Kico
Marina, mãe do Kico, veio nos encontrar em Cusco e ficou 10 dias conosco. Fez feijoada e outras comidas pra gente, deu um gostinho de casa para os três.
Tiago estava com dores nos pés e não sabia quando ia poder ir para Machu Picchu, então Kico e Marina foram antes para conhecer a famosa ruína Inca. Depois foram também conhecer as ilhas flutuantes de Puno.
Ter recebido a visita da minha mãe, tê-la levado para conhecer Machu Picchu e o lago Titicaca foi muito especial para mim. Momentos em que matei a saudade de casa e do carinho da família. Kico Zaninetti
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Machu Picchu
A missão para Machu Picchu foi feita em duas expedições diferentes. Kico foi antes com sua mãe por conta do tempo que ela passaria em Cusco e Caseh foi uns dias depois com a amiga Annie. Tiago estava com dores nos pés e não quis arriscar a caminhada, como já tinha ido em 2008, achou melhor ficar em Cusco.
Machu Picchu é um lugar extremamente especial na face da terra. É uma ruína Inca muito bem preservada (muita coisa foi refeita pra gringo ver) e é construída no topo de uma montanha que fica localizada em um cânion coberto de verde cortado pelo rio Urubamba.
Para se chegar lá tem que tomar um trem desde Ollantaytambo ou encara alguns dias de caminhada com um visual fantástico. Para ir andando existem várias opções de trilha, sendo a mais famosa, mais cara e mais concorrida, a Trilha Inca. Outra opção de caminhada é ir pelo trilho do trem desde Ollantaytambo (caminho feito pelo Caseh).
Chega-se primeiro à cidade de Águas Calientes, que fica ás margens do Rio Urubamba e é uma cidadezinha totalmente voltada para o turismo, cheia de restaurantes e hostals. De lá, são 1:30 min de trilha até a portaria de Machu Picchu.
Ver aquela cidade de pedra de perto é uma sensação incrível. A conexão dos Incas com a natureza é inspiradora e só estando lá e olhando as montanhas ao redor, a perfeição das construções, as trilhas e os templos, para entender um pouco da história antiga dessa civilização que foi devastada pelos espanhóis.
Além da cidadela em si, conhecemos também as montanhas Huayna Picchu e a montanha Machu Picchu, ponto mais alto do parque. Cada um destes lugares apresenta um panorama diferente das ruínas e é incrível ver tudo de cima.
Casa do Beto e Dyani
Nesse meio tempo em Cusco a Dyani, amiga que nos foi apresentada pelo Eber de Oruro, nos convidou para ficarmos na casa de seu namorado, Beto. Foi ótimo, pois tínhamos um encontro com Olinto e Rafa, que estava chegando em breve em Cusco por uma rota diferente da que íamos fazer. As pessoas algumas vezes nos acolhem de uma forma que é até difícil saber como retribuir. Casa confortável, com cama macia e banho quente e todos os dias o casal fazia uma comida típica do Peru para nos apresentar, nos trazia doces, coisas típicas da região e nos apresentou para seus amigos. Em nossas conversas, Beto e Dyani nos contavam sobre a história dos Incas e de como é a vida hoje na região.
Nos ensinaram muito e hoje são grandes amigos que fizemos na estrada e sempre mantemos contato pela internet.
Vale Sagrado e o econtro com Olinto e Rafa.
Quando ficamos sabendo da possibilidade de nos encontrar com o Antônio Olinto em nossa passagem pelo Peru, ficamos muito empolgados, pois, para quem não o conhece, foi o primeiro brasileiro que fez a volta ao mundo em bicicleta e foi inspirado em seu livro No Guidão da Liberdade que estamos na estrada hoje.
Quando Olinto e Rafa, sua esposa, chegaram em Ollantaytambo fomos até lá de van no mesmo dia para encontrá-los. Era fim de tarde quando enfim conhecemos o cara que nos inspirou a estar vivendo essa viagem hoje. Passamos o dia juntos, trocamos muitas idéias, visitamos uma ruína que tem ao lado da cidade e combinamos de ir a Cusco e voltar à Olantaytambo com nossas bicicletas, enquanto eles iam conhecer Machu Picchu.
Chegamos em Cusco, ajeitamos uma bagagem bem leve para fazer um cicloturismo de apenas 4 dias pelo Vale Sagrado e partimos pedalando. Depois de muita subida e descida, chegamos na cidade de Maras, onde pernoitamos no pátio de uma igreja, com um visual de frente a umas montanhas nevadas e como Vale Sagrado lá embaixo, bem show.
Saímos de Maras por uma estrada de chão que leva às ruínas de Moray, que era um laboratório agrícola dos Incas, bem interessante, mas nada comparável com a descida alucinante que fizemos a partir dali até chegar na beira do rio Urubamba, já no meio do Vale Sagrado.
Chegamos em Ollantaytambo e encontramos com o casal que estava exausto da caminha que fizeram de Águas Calientes até Ollantaytambo. Jantamos juntos e dormimos cedo.
A pedalada a Pisac foi descendo o rio, pedalando e conversando muito com os dois. A interação com Olinto e Rafa foi muito fácil, simples e rica. Falamos sobre viagem, vida, religião, no meio de muitas brincadeiras e risadas.
Subimos para Cusco, e fomos parando para descansar e conhecer as ruínas Incas que tem pelo caminho. Em uma das ruínas, o segurança disse liberar a entrada para nós sem termos que pagar, mas teríamos que cantar e sambar. Rafa deu o incentivo inicial e logo saiu o coro “Brasil, meu Brasil brasileiro…” e todos nós começamos a sambar… foi bem divertido.
Quando chegamos na cidade, já era noite. Perguntamos a Beto e Dyani se poderiam nos ajudar a conseguir uma hospedagem para nossos amigos e eles prontamente os convidaram para ficar em sua casa conosco.
Olinto e Rafa passaram duas noites conosco, compartilhando com Dyani e Beto numa reunião de pessoas que nunca poderíamos imaginar. Foi uma troca de idéias sensacional e cada vez mais percebemos que viajar nos proporciona conhecer pessoas muito especiais e isso tem nos feito evoluir muito como pessoas.







































4 Comentários
Falta só coragem! mais novo, tinha mais coragem e outra coisa mais também…apesar de conhecer toda região, já passei 3 vezes por aí, mas não me vejo pedalando a 4.000 metros. Já voei a mais metros mas pedalar, não!! suerte a todos.
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Magnifico, simplesmente maravilhoso toda essa aventura de voces!! Me emociono a ler o diario de bordo!
Carlito eu Vaninnha ja estamos providecniando a camisa eenviaremos a foto!!! BJO Enorme e continuem firme!!
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iaê galera!! lembram de mim? demorei muuuuito pra mandar uma msg né?!?! to sem net, to morando perto da cachoeira do macaquinho, e lá ainda não tenho comunicação! enfim ,caramba, parece que foi ontem que vocês passaram lá em casa(chapada dos veadeiros), mas ja tem mais de ano, e eu to muito feliz por ver que estão firmes e fortes na estrada, encontraram o Olinto que massa em.. vcs sabem que eu tb queria ta í com vcs né, viajar de bike é dooooido de mais!!!!.e que Deus continue abençoando a viagem de vcs, muita paz e felicidades, um bom Natal e ano novo!!! valeu irmãos cicloturistas!!!!!
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AINDA BEM QUE BRASILEIRO TEM BOA FAMA MUNDO AFORA…
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